17 de dez de 2015

Institutas 35

“… Mas é falsa sua opinião de que a eleição só começa a ser eficaz quando abraçamos o Evangelho, e que daqui toma toda sua força e vigor. É verdade que, no que nos diz respeito, recebemos do Evangelho a certeza da mesma; porque, se tentássemos penetrar no decreto eterno e na ordenação de Deus, aquele profundo abismo nos tragaria. Mas, depois de que Deus nos manifestou e deu a entender que somos seus eleitos, é necessário que subamos mais alto, para que o efeito não sufoque sua causa. Porque que há de mais absurdo e (irrazoável) que, quando a Escritura nos ensina e afirma que Deus nos iluminou à medida que nos elegeu, esta claridade cegue de tal maneira nossos olhos que nos recusemos a olhar para nossa eleição?… Devemos, pois refrear esta temeridade com a sobriedade da fé, para que Deus nos seja testemunha suficiente de sua graça oculta, que nos revela em sua palavra; contanto que este canal, pelo que corre a água em grande abundância para que bebamos dela, não impeça que a verdadeira fonte tenha a honra que lhe é devida.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXIV, parágrafo 3)

“… Portanto, se tememos naufragar, acautelemo-nos com grande cuidado e solicitude de dar contra esta rocha, contra a qual não pode chocar sem que se siga a total ruína e destruição. E, ainda que esta disputa da predestinação seja temida como um mar perigosíssimo, no entanto, navegar por ele e tratar dela é bem seguro e, atrevo-me a dizê-lo, deleitável; a não ser que alguém queira se meter no perigo de propósito. Porque assim como aqueles que, para estar seguros de sua eleição, penetram no secreto conselho de Deus sem sua Palavra, dão consigo num abismo do qual não poderão sair; do mesmo modo, pelo contrário, os que a buscam como se deve e conforme à ordem que a Palavra de Deus nos mostra, tiram dele grande consolo. Sigamos, pois, este caminho para buscá-la. Comecemos pela vontade de  Deus e terminemos pela mesma…
… A este respeito, Bernardo se expressa muito a propósito. Depois de ter falado dos réprobos, diz estas palavras: 'o propósito de Deus permanece firme, a sentença de paz está assegurada sobre os que o temem, dissimulando seus males e remunerando seus bens, para que, de uma estranha maneira, não somente seus bens, mas mesmo seus males, convertam-se em bem. Quem acusará os eleitos de Deus? A mim me basta somente, para possuir a justiça, ter propício e favorável Aquele contra quem pequei. Tudo quanto Ele determinou não me imputar é como se nunca tivesse existido' [Bernardus, In cant. Serm. 23, 15 MSL 183, 892C]. E pouco depois: 'ó lugar de verdadeiro repouso, ao qual não sem razão poderia chamar câmara na qual Deus é visto, não como perturbado pela ira ou angustiado pela preocupação, mas na que se conhece que sua benevolência é boa, agradável e perfeita. Esta visão não espanta nem assombra, mas antes aquieta; não suscita curiosidade alguma cheia de inquietude, mas a apazigua; não turba os sentidos, mas os aquieta. Eis onde deveras se consegue repouso: que Deus, estando apaziguado, nos tranquiliza, porque nosso repouso é vê-lo e tê-lo aplacado' [Ibidem, 16 col. 893AB]...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXIV, parágrafo 4)

“… Portanto, não se diz que aqueles que Deus tomou como filhos seus, Ele os elegeu em si mesmos, mas em Cristo (Efésios 1:4); pois não podia amá-los, nem honrá-los com a herança de seu reino, senão fazendo-os partícipes dele. Orar, se somos eleitos nele, não acharemos a certeza de nossa eleição em nós mesmos; nem sequer em Deus Pai, se o imaginarmos sem seu Filho… Se desejamos algo mais do que ser considerados filhos e herdeiros de Deus, seja necessário que subamos mais alto que Cristo. Se tal é nossa meta e não podemos passar mais adiante, quão desencaminhados andamos, ao buscar fora dele o que já conseguimos nele, e só nele podemos achar!...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXIV, parágrafo 5)

“Quanto à sentença de Cristo, 'muitos são chamados, poucos os escolhidos' (Mateus 22:14), aplicam-na e entendem-na muito mal. Mas esclarecer-se-á, se distinguirmos dois tipos de chamamento; divisão que, segundo já expusemos, é evidente. Porque há um chamamento universal com o que Deus, mediante pregação externa de sua Palavra, chama e convida a si indistintamente a todos, inclusive aqueles a quem ela está proposta como odor de morte e matéria de maior condenação. Há outro [chamado], particular – do qual não faz partícipe a maioria, mas somente a seus fiéis – quando, pela iluminação interior de seu Espírito, faz que a palavra pregada enraíze em seu coração...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXIV, parágrafo 8)

“… De cem pessoas que ouvem o mesmo sermão, vinte o aceitarão com pronta fé, e as demais não o levarão em consideração, rir-se-ão dele, rejeitá-lo-ão e condená-lo-ão...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXIV, parágrafo 12)

“… Sendo, pois, assim, não nos dê vergonha falar como o faz Agostinho: 'Deus bem poderia converter a vontade dos maus em bem, uma vez que é onipotente. Sem dúvida, poderia. Por que, então, não o faz? Porque não o quis! Mas, por que não o quis, só Ele o sabe' [Agostinho, De Genesi ad literam XI 10, 13 MSL 34, 434]...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXIV, parágrafo 13)

“… Ao ouvir isso, os ímpios se queixam de que Deus abusa de suas pobres criaturas, exercendo sobre elas um cruel e desordenado poder, como se estivesse zombando. Mas nós, que sabemos que os homens são culpados de tantas maneiras perante o tribunal de Deus que, se fossem interrogados sobre mil pontos não poderiam responder satisfatoriamente a um sequer, confessamos que os ímpios não padecem de nada que não seja por julgamento justo de Deus. Que não possamos compreender a razão, devemos suportá-lo pacientemente; e não temos de nos envergonhar de confessar nossa ignorância, quando a sabedoria de Deus se eleva até o alto...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXIV, parágrafo 14)

“… Conclusão: depois de muito discutir e de acumular razões de um lado e de outro, é preciso concluir como Paulo, cheios de estupefação ante tal profundidade; e, se certas línguas desenfreadas vomitam seu veneno contra isso, não nos envergonhemos de exclamar: 'Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?!' (Romanos 9:20). Porque Agostinho diz muito bem que aqueles que medem a justiça de Deus pela dos homens agem muito mal.
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXIV, parágrafo 16)

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Último capítulo (XXV) do Livro 3: A ressurreição final

“… Eis porque a fé é algo tão raro no mundo: porque nada é mais difícil para a nossa preguiça do que transpor esses inúmeros obstáculos e seguir adiante, até a palma da vocação celeste. Ao grande cúmulo de misérias por que somos cobertos, juntam-se os escárnios dos homens profanos, que acometem contra nossa simplicidade, quando nós, ao renunciar de espontânea vontade às facilidades da vida presente, parecemos procurar uma bem-aventurança que nos é desconhecida, como se perseguíssemos uma sombra fugidia. Finalmente, somos obsideados, por cima e por baixo, pela frente e por trás, por tão violentas tentações que nossos espíritos não seriam capazes de suportá-las a menos que, desprendidos das coisas terrenas, nos entregássemos à vida celestial, que é tão distante de nós em aparência. Razão pela qual aproveitou de fato o Evangelho aquele que está acostumado à contínua meditação da ressurreição bem-aventurada.
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXV, parágrafo 1)

Os filósofos antigos disputaram acirradamente sobre o último fim dos bons, e até brigaram entre si; mas nenhum, exceto Platão, reconheceu que o sumo bem do homem é a união com Deus...
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXV, parágrafo 2)

“… E, assim, fiquemos atentos a este tema [a ressurreição] de máxima seriedade, para que o passar do tempo não nos traga o cansaço. Por essa razão, retardei o que devia tratar sobre a ressurreição até este lugar, parar que os leitores aprendam a se elevar mais alto, depois de terem recebido a Cristo como autor de sua total salvação, e para que saibam que está vestido de imortalidade e glória celestial, a fim de que todo seu corpo seja conforme sua cabeça; como o mesmo Espírito Santo muitas vezes nos propõe o exemplo da ressurreição na pessoa de Cristo.
É coisa difícil de crer que os corpos consumidos pela putrefação hão de ressuscitar no final dos tempos. E, assim, ainda que muitos filósofos tenham afirmado que as almas sejam imortais, a ressurreição da carne foi aprovada por poucos. E, ainda que não tenham nenhuma desculpa, com isso somos avisados, no entanto, de que esse tema é uma coisa mais árdua do que o senso humano pode compreender.
Para que a fé supere um obstáculo tão grande, a Escritura vem a nosso auxílio de duas maneiras: uma, na semelhança de Cristo; outra, na onipotência de Deus…… Abordo brevemente coisas que poderiam ser tratadas muito mais extensamente e que merecem ser ornadas num estilo mais brilhante. Confio, porém, que os leitores piedosos hão de encontrar nestas poucas palavras matéria suficiente para edificar sua fé...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXV, parágrafo 3)

“Quanto ao que dissemos, que, para termos a prova da ressurreição, temos de dirigir nossos sentidos à imensa potência de Deus… Portanto, não há nada menos coerente do que considerar aqui o que é possível ocorrer naturalmente, já que se nos apresenta um milagre inestimável, que faz desaparecer todos os nossos sentidos em sua magnitude...
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXV, parágrafo 4)

“E, ainda que fosse conveniente que as mentes dos homens se ocupassem desse tema continuamente, eles, como se, no entanto, quisessem abolir toda memória da ressurreição, chamaram à morte o fim de todas as coisas e a destruição do homem… Certamente, esse estupor bestial grassou por todos esses séculos, e até penetrou na própria Igreja; porque os saduceus se atreveram a pregar publicamente que não existe ressurreição (Marcos 12:18; Luas 20:27; Atos 23:8), e até que as almas são mortais.
Mas, afim de que essa crassa ignorância não lhes sirva de desculpa, eles sempre tiveram diante dos olhos, pelo próprio instinto da natureza, alguma imagem de ressurreição. Pois para que aquele santo e inviolável costume de sepultar os mortos, senão como penhor de uma nova vida? E não se pode dizer que isto nasceu de um erro, uma vez que a prática da sepultura vigeu entre os santos patriarcas desde sempre. E Deus quis que este mesmo costume se mantivesse entre os gentios, para que, oferecida a imagem da ressurreição, despertassem de seu torpor…
… Quão loucamente deliram aqueles que temem atribuir a Deus uma excessiva crueldade se afirmarem que os réprobos foram condenados a uma pena eterna, é algo evidente até para os cegos. Pois dizem que Deus cometeria grave injúria se privasse de seu reino os que, por ingratidão, se tornaram indignos dele! E que seus pecados são temporais. Admito-o; mas a majestade de Deus e mesmo sua justiça, que eles violaram ao pecar, é eterna...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXV, parágrafo 5)

“… Entretanto, uma vez que a Escritura nos ordena em toda parte que estejamos pendentes da expectativa da vinda de Cristo, e que nos diz que a coroa difere da glória até esse momento, contentemo-nos com estes limites que nos foram prescritos pela divindade: que as almas dos homens pios, ao concluir seu trabalho de luta, vão para um descanso bem-aventurado, onde com grande alegria esperam a fruição da glória prometida; e que assim tudo fica em suspenso até que Cristo apareça como Redentor...
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXV, parágrafo 6)

“Tenho vergonha de empregar, em coisa tão clara, tantas palavras; mas peço aos leitores que suportem comigo este incômodo pacientemente, a fim de que as mentes perversas e desavergonhadas não encontrem brecha alguma por onde penetrar para enganar a gente simples…
Em primeiro lugar, deve-se reter o que já dissemos: que ressuscitaremos com a mesma carne que temos agora, quanto à substância; mas a qualidade será outra… E, como Deus tem à sua disposição todos os elementos, nenhuma dificuldade impedirá que ordene à terra, às águas e ao fogo que devolvam o que parecia ter sido consumido por eles...
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXV, parágrafo 8)

“… Pois embora ouçamos que o reino de Deus há de estar cheio de claridade, de alegria, felicidade e glória, todas estas coisas estão entretanto muito afastadas de nossos sentidos e como que envoltas em enigmas, até que venha aquele dia em que o Senhor nos manifestará sua glória, para que o contemplemos face a face… Mas, por que é necessário que o fervor do desejo por ela [a ressurreição] se acenda em nós por certo gosto de sua suavidade, demoremo-nos principalmente neste pensamento: se Deus, como fonte viva que nunca se esgota, contém em si a plenitude de todos os bens, nada fora dele pode ser esperado por aqueles que se esforçam em alcançar o sumo bem em toda sua plenitude e a perfeição da felicidade, como somos ensinados em vários passos...
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXV, parágrafo 10)

“… Suponhamos que vivemos na região mais abundante do mundo, na qual não falta nada que possa dar-nos satisfação. Quem é que não se vê muitas vezes impedido ou proibido por suas próprias enfermidades de usar dos benefícios de Deus? Quem não se vê forçado a abster-se de seus bens e jejuar, por causa de sua intemperança? De onde se segue que o cúmulo da felicidade é a fruição simples dos bens de Deus, limpa de todo vício, ainda que não nos sirvamos deles para o uso desta vida corruptível…
Pois são muito poucos dentre a grande multidão dos homens que se preocupam saber como se vai ao céu; mas todos desejam saber antes do tempo o que é o que se faz lá. Quase todos são preguiçosos e lentos para se apresentar para o combate; e, entretanto, já fantasiam para si triunfos imaginários.
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXV, parágrafo 11)

“… Sobre este tema, o salmo 90 contém uma sentença memorável: que, mesmo que Deus extermine, só com seu olhar, todos os mortais e os reduza a nada, estimula, no entanto, os seus servos, por mais temerosos que vivam neste mundo, para incitá-los a que, mesmo sobrecarregados sob o peso da cruz, persistam (Salmos 90:7ss), até que Ele seja tudo em todos (1 Coríntios 15:28).
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXV, parágrafo 12)

12 de dez de 2015

Aprendizado piedoso 117

Oito razões pelas quais precisamos dos Puritanos
(http://www.thegospelcoalition.org/article/8-reasons-we-need-the-puritans)
Jeff Robinson

Muitos anos antes de entrar no ministério vocacionado eu trabalhei como jornalista no mundo altamente competitivo da mídia secular. Enquanto trabalhava como repórter para um jornal metropolitano diário na Geórgia, uma das minhas colegas progressistas me provocava, de forma bem humorada, sobre eu ser um “garoto conservador” proveniente de uma pequena cidade do norte da Geórgia. Ela dizia, “Sabe o que você é? Você é um Puritano!”. Naquele tempo, eu não sabia como responder a este comentário. Hoje em dia eu o vejo como um grande elogio.
Na mente de muitos, o Puritanismo é equivalente a um conjunto de regras escrupulosas a serem cumpridas, um Cristianismo severo, ou, como o inimitável jornalista americano H.L. Mencken ironizou: “Puritanismo é o medo assombroso de que alguém, em algum lugar, possa ser feliz”.
Nas últimas décadas, em grande parte graças ao esforço de publicação do “Banner of Truth” (https://banneroftruth.org/us), e da defesa de Martyn-Lloyd Jones, os Puritanos ingleses e americanos têm realizado um retorno significativo entre os evangélicos Reformados. Durante os meus anos no Seminário, me apaixonei pelos Puritanos. Hoje em dia, tenho prazer em ensinar sobre os Puritanos e durante meu tempo como pastor, homens como John Bunyan, Thomas Watson, e John Owen estiveram entre os meus pastores através dos seus escritos teológicos profundamente devocionais. Apesar de já mortos eles certamente ainda falam. E nós precisamos ouvi-los.
É sabido que eles podem ter sido, algumas vezes, excêntricos e com tendências de buscarem extremos. Os Puritanos nunca conheceram uma regra que não pareciam apreciar. Eles tinham, decididamente, uma visão deficiente de recreação e lazer. Os seus escritos tendiam a ser muito extensos, frequentemente declarando e redeclarando o mesmo ponto várias vezes. E a sua tentativa de aplicar conceitos morais às experiências de vida e introspecção espiritual, frequentemente não conhecia fronteiras. Por exemplo, Cotton Mather observou certa vez que o seu coração pecaminoso era a causa de uma dor de dente, e registrou no seu diário: “Não pequei eu contra os meus dentes? Como? Através de glutonaria pecaminosa e ausente de graça e através do falar pecaminoso?” (Citado em Leland Ryken, “Worldly Saints”). Eles eram, afinal de contas, pecadores salvos pela graça.
Entretanto, apesar de toda a sua humanidade, eles representam um ponto elevado (emprestando uma frase favorita de John Piper) de vida Cristocêntrica, Bibliocêntrica, e vivida Coram Deo.
Oito razões
Em nossa era de julgamentos instantâneos, com 140 caracteres (fazendo referência ao textos do Twitter), nós talvez precisemos dos Puritanos mais do que nunca. Aqui estão oito razões para isto.

1. Porque eles tinham maturidade em assuntos que nós não temos.
J.I. Packer foi direto ao ponto: “A maturidade é composta de sabedoria, boa vontade, resiliência, e criatividade. Os Puritanos são um exemplo de maturidade; nós não somos. Nós somos anões espirituais. Um líder muito viajado, um americano nativo (que seja dito), declarou que ele avalia o Protestantismo norte americano como antropocêntrico, manipulativo, orientado por sucesso, autoindulgente e sentimental, como ele abertamente é, tendo 3000 km de largura e apenas meio centímetro de profundidade. Os Puritanos, em contraste, eram gigantes como um todo. Eles eram grandes almas servindo a um grande Deus.”
Alguém pode negar a verdade destas afirmações sobre boa parte do evangelicalismo moderno, nos dias de hoje?

2. Porque eles compreenderam a profunda pecaminosidade do coração humano.
John Owen (1616-1683) chamou o coração humano de um “ninho de vespas do mal”. Ele escreveu a obra “The Mortification of Sin” (“A Mortificação do Pecado”), o mais famoso tratado sobre o pecado, entre os Puritanos. Como eles compreendiam a depravação do coração humano, os Puritanos perceberam que apenas uma obra unilateral da graça soberana poderia resgatar o homem caído. Portanto, a sua profunda compreensão da morbidade do coração humano os conduziu a plantar firmemente os seus pés sobre uma teologia de graça, como o único catalisador que iria chamar os corações mortos para fora da sepultura.

3. Porque eles sabiam que a sua melhor vida ainda estava por vir.
Os puritanos sofreram muito, mas sofreram “bem”. A morte foi uma companhia constante para os Puritanos dos séculos 17 e 18. Na Inglaterra, eles enfrentaram perseguições mortais nas mãos da Igreja da Inglaterra, a igreja que eles buscavam purificar. No Novo Mundo, eles enfrentaram um clima muito severo. Packer escreve: “Facilidade e luxo, tais quais a nossa riqueza nos traz nos dias de hoje, não promovem a maturidade; dificuldades e lutas, contudo, promovem, e as batalhas dos Puritanos contra os desertos espiritual e climático, nos quais Deus os colocou, produziram uma virilidade de caráter, destemido e inaufragável, elevando-se acima do desencorajamento e dos temores, para os quais os verdadeiros precedentes e modelos são homens como Moisés, e Neemias, e Pedro, depois do Pentecostes, e o apóstolo Paulo.”

4. Porque eles consideravam a família como uma pequena igreja.
Os Puritanos, pais de família, estiveram profundamente comprometidos em catequizar os seus filhos e a servir como pastores em seus lares. Uma das maiores necessidades dos nossos dias é a de que Deus levante um exército de maridos/pais com corações de leão e espírito de cordeiro, para amarem suas famílias, ensinando-as a Palavra de Deus, e modelando liderança bíblica e eclesiástica. Eu escrevi mais extensamente sobre os Puritanos e o discipulado em família neste link: http://www.sbts.edu/family/blog/3221.

5. Porque eles contemplaram a vida toda sendo vivida Coram Deo – diante da face de Deus.
Para os puritanos tanto da antiga quanto da nova Inglaterra, não existia separação entre o que era sacro e o que era secular. Se eles trabalhavam como ferreiros, o chamado era para ser um ferreiro para a glória de Deus. Se eles trabalhavam no campo das fazendas, eles semeavam e colhiam na dependência de Deus. Os puritanos sabiam vividamente que Deus é onipresente, e que não há nenhum centímetro quadrado, em toda a criação, onde Ele não esteja presente, ou pelo qual Ele não esteja interessado em irradiar a sua glória. Para os Puritanos, o trabalho duro era uma parte central da vida Cristã, e o que nós chamamos de ética Protestante do trabalho é um presente que recebemos deles.

6. Porque eles foram soldados altamente condecorados no campo de batalha espiritual.
Eles encaravam os conflitos espirituais como um ponto central do chamado Cristão. Como Packer descreveu memoravelmente, “Eles nunca esperavam avançar um passo sequer sem algum tipo de oposição”. Isto é evidente na clássica história alegórica de John Bunyan, “O Peregrino”, onde cada passo ao longo do caminho para a Cidade Celestial contava com lutas e temores. John Geree (1601-1649) escreveu, na obra “The Character of an Old English Puritane or Nonconformist” (“O Caráter de um Velho Puritano Inglês ou Não-conformista”): “Toda a sua vida ele participou de uma guerra, onde Cristo foi o seu capitão, e as suas armas foram as orações e as lágrimas. A Cruz foi a sua Bandeira e o seu lema foi: quem sofre, conquista”. William Gurnall (1617-1679) escreveu “The Christian in Complete Armor” (“O Cristão com Plena Armadura”), que perdura como uma das obras mais importantes sobre batalha espiritual.

7. Porque eles foram habilidosos médicos de almas.
Muito tempo antes de Jay Adams e David Powlison terem sido pioneiros no movimento, os Puritanos se destacaram em aconselhamento bíblico. Eles consideravam a Palavra de Deus como suficiente para  as necessidades de cada Cristão, incluindo o aconselhamento. Tim Keller (http://www.ccef.org/puritan-resources-biblical-counseling) escreveu: “Claramente, os Puritanos apoiavam a sua abordagem de aconselhamento nas Escrituras. De muitas formas, os Puritanos são um excelente laboratório para o estudo do aconselhamento bíblico, pois eles não foram influenciados por nenhum modelo secular de psicologia. Hoje em dia, muitos dos que alegam ser estritamente bíblicos nas suas abordagens de aconselhamento, mostram clara evidência de uma profunda influência recebida de Maslow, ou Rogers, ou Skinner, ou Ellis. No entanto, os Puritanos virtualmente dominavam o campo da 'cura das almas'; eles não tinham nenhuma competição secular na área do aconselhamento. Portanto, nós precisamos considerar os seus modelos de aconselhamento muito seriamente”.

8. Porque eles compreenderam o contentamento em Cristo como a chave genuína para a felicidade.
Cristo era suficiente para eles. Ele tinha que ser; particularmente nas colônias americanas, sem medicina moderna e em tempos onde o alimento era precioso e pouco disponível e a expectativa de vida era de cerca de 30 anos. Se uma família tinha quatro filhos, em média dois iriam morrer no nascimento. A grosso modo, metade das mães morriam durante o parto. Não existia aspirina, nem penicilina, nem cirurgia. Dificuldades financeiras eram comuns. Mesmo assim, os Puritanos escreveram frequentemente sobre o contentamento. Dentre os melhores trabalhos já escritos neste tópico, estão “The Rare Jewel of Christian Contentment” (“A Jóia Rara do Contentamento Cristão”), de Jeremiah Burroughs, e “The Art of Divine Contentment” (“A Arte do Contentamento Divino”), de Thomas Watson. Eles viveram com a eternidade estampada em seus olhos.

Leia os Puritanos
John Piper foi moldado por um engajamento muito próximo, cuidadoso e de longas décadas com os Puritanos. Ele fala sobre porque precisamos dos Puritanos: “A minha própria experiência é que ninguém se aproxima da habilidade que eles tiverem em fazer uso do bisturi cirúrgico das Escrituras, para lancetar as úlceras da minha corrupção, cortando os cânceres dos hábitos da minha mente que menosprezam a Deus e amputando os membros da minha desobediência. Eles simplesmente estão em uma classe à parte”.

Amém. Vão, e leiam os Puritanos.

Leitura recomendada sobre os Puritanos:
J. I. Packer, A Quest for Godliness: The Puritan Vision of the Christian Life (Crossway, 1990).
Leland Ryken, Worldly Saints: The Puritans as They Really Were (Zondervan, 1986).
Joel R. Beeke and Randall J. Pederson, Meet the Puritans (Reformation Heritage, 2013).
Joel R. Beeke and Mark Jones, Puritan Theology: Doctrine for Life (Reformation Heritage, 2013).
Kelly M. Kapic, Randall C. Gleason, eds., The Devoted Life: An Invitation to the Puritan Classics (IVP, 2004).

Obras dos Puritanos:
John Bunyan (1628-88), Grace Abounding to the Chief of Sinners
John Flavel (1627-91), The Mystery of Providence
Thomas Boston (1676-1732), The Crook in the Lot: The Wisdom of God Displayed in the Afflictions of Men
Richard Baxter (1615-91), The Reformed Pastor
Thomas Watson (1620-1686), A Body of Divinity, All Things for Good, The Doctrine of Repentance
Joseph Alleine (1634-68), An Alarm to the Unconverted
Richard Sibbes (1577-1635), The Bruised Reed
William Bridge (1600-70), A Lifting Up for the Downcast

(Tradução do texto em formato PDF neste link)

Aprendizado piedoso 116

Dez lições extraídas da cirurgia dos meus olhos
(http://www.joelbeeke.org/2015/11/ten-lessons-from-my-eye-surgeries)
Joel Beeke

Ontem, o meu dermatologista removeu um câncer de pele de células basais da minha pálpebra inferior esquerda. Na cirurgia de Mohs (técnica utilizada para retirada de alguns tipos de câncer de pele), o médico remove uma fatia da área afetada. Eles a examinam microscopicamente e, se existe mais câncer, removem outra fatia, até as margens estarem livres de câncer. Tipicamente, uma ou duas fatias são necessárias, mas no meu caso ele precisou retirar quatro camadas, pois se estendeu para baixo e para os lados. Isto incluiu 60% da pálpebra. Se tivesse comprometido 30% ou menos, a cirurgiã plástica poderia ter apenas juntado as partes, mas uma cirurgia mais ampla foi necessária. Mary me retirou do consultório do dermatologista, direto para o ambulatório cirúrgico. Deus nos concedeu os dois melhores médicos possíveis. Então, a cirurgiã plástica enxertou um pedaço de pele da dobra da minha pálpebra superior para reparar o ferimento na inferior. Em seguida, ela fez um retalho de cartilagem da pálpebra superior e suturou-o no local da ferida. Consequentemente, meu olho está fechado e tampado, permitindo que a cartilagem estabeleça um suprimento de sangue no local da ferida. Em três semanas, ela vai cortar a cartilagem compartilhada e, além da falta de 60% dos meus cílios inferiores, a reparação não deve ser perceptível. A coisa surpreendente é a forma como o corpo restaura a si mesmo — nós somos feitos de um modo assombrosamente maravilhoso!

Eu suponho que sou muito Puritano para não aproveitar esta oportunidade de refletir sobre as lições a serem aprendidas, e para examinar a mim mesmo depois de passar por estas cirurgias. Espero que este autoexame seja uma coisa boa, embora possa ser doloroso em si, e, é claro, pode tornar-se demasiadamente introspectivo, se não for cercado por princípios bíblicos como os ensinados por João Calvino. Calvino ensinou que o autoexame é necessário e proveitoso, desde que seja baseado nas Escrituras, termine em Cristo e seja guiado pelo Espírito Santo. Aqui estão 10 reflexões práticas do dia depois da minha cirurgia, que eu espero que você encontre utilidade:

(1) Diferente de Deus, os médicos não são infalíveis, soberanos, e todo-poderosos. Eles também podem cometer erros. Eu tenho um dermatologista muito habilidoso, com quem frequentemente eu converso sobre teologia — ele já leu vários dos meus livros. Apesar de ter um excelente dermatologista, ele errou ao diagnosticar uma verruga na minha pálpebra inferior no início deste ano, e me disse que não era definitivamente cancerosa. Quatro meses depois, contudo, ela provou ser cancerosa. “Lamentavelmente”, disse ele, “Eu estava errado da última vez, mas você conhece sua teologia o bastante para saber que apenas Deus é infalível!”. Bem, eu não pude argumentar contra isto! Enquanto isto, a lesão continuou a crescer, até finalmente eu conseguir encontrar dois especialistas que me atenderam ontem, um após o outro. Contudo, vejo ainda mais claramente agora que tudo isso, é claro, foi obra da vontade soberana de Deus para mim. (Falando de forma positiva, meu dermatologista esteve certo em outras dez vezes que eu tive lesões menos sérias retiradas por ele, na maioria, em minha face. Parece que eu herdei este espinho na carne do meu pai. Meus irmãos e sobrinho também têm o mesmo problema.)

(2) Abaixo de Deus, os médicos são importantes e inestimáveis. Nós não depositamos a nossa confiança definitiva em médicos terrenos, mas sim em nosso Deus Triuno celestial. Contudo, mesmo quando agimos assim, reconhecemos que a Causa Última de todas as coisas (o nosso soberano e paterno Deus) normalmente conduz a sua vontade paterna através de causas secundárias (como médicos terrenos). Portanto, não é errado, mas sim importante, fazer perguntas significativas e buscar médicos altamente qualificados em cujas habilidades humanas podemos confiar a nível secundário. Os médicos que Deus me concedeu são ambos bem conhecidos por serem altamente habilidosos e qualificados — e eu tive algum conforto no fato de que vários dos meus amigos médicos concordaram enfaticamente com isto. Considero tudo como um ato significativo da graça de Deus na situação abrangente que experimentei ontem.

(3) A fé versus os sentidos e a descrença, por vezes, disputam uma batalha feroz. Isto já tinha começado no início deste mês, quando a cirurgiã plástica me disse, em uma consulta pré-operatória, que apesar de ser raro (5% de chance, ela disse) existem ocasiões em que, se mais de 30% da pálpebra inferior precisa ser retirada, então a cirurgia se torna “confusa e complicada” e o olho precisa ser suturado e tamponado por cerca de três semanas. Sabendo por quanto tempo este câncer esteve crescendo, fiquei imediatamente receoso e assustado. Uma semana depois este medo foi agravado ao falar com alguém que tinha passado por esta cirurgia e tinha desenvolvido sérios problemas, de tal modo que foi preciso outra cirurgia três meses depois. Assim, quando o meu dermatologista me disse ontem que uma segunda extração cirúrgica precisaria ser feita, pois o câncer era mais profundo e extenso do que se imaginava e a primeira extração tinha ficado a desejar, eu perguntei ao médico se isto significava que ele teria que retirar mais do que 30% da minha pálpebra, tendo eu que ser encaminhado para uma cirurgia plástica mais difícil e complicada. Quando ele disse, “Eu receio que isto deve acontecer”, meu pensamento imediato foi, “Mas Senhor, a última pessoa que orou comigo no Seminário, nesta manhã, não rogou que tu poderias fazer tudo mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos — tinha sido exatamente esta a minha oração no dia anterior — e esta oração não está sendo refutada agora?” A batalha da fé contra os sentidos foi inflamada. O meu único recurso foi o de conscientemente disciplinar a minha mente a correr para Cristo.

(4) A fé e a autopiedade podem facilmente coexistir. Depois do dermatologista retirar uma grande porção, nesta segunda vez, eu me senti confiante de que o câncer tinha sido completamente removido, mas o relatório voltou informando que ainda havia câncer em ambos os lados, o que significava que uma porção ainda maior da minha pálpebra ainda precisaria ser retirada. Por poucos minutos a fé recuou e a autopiedade colocou sua cabeça de fora. Novamente, o meu único recurso foi o de pensar em Cristo — especificamente naquela maravilhosa primeira pergunta do Catecismo de Heidelberg, que diz que o meu único conforto na vida e na morte é que eu pertenço a Ele.

(5) A fé e a falsa submissão são frequentemente difíceis de discernir. Quando voltou a notícia de que eu iria precisar de uma quarta extração, quase sem precedentes, eu não senti nada além de submissão, contudo uma submissão mista. Por um lado, eu senti como se eu pudesse entregar tudo nas mãos de Cristo, mas ao mesmo tempo me senti entorpecido e estóico. Eu tinha desistido da batalha, mas aquela rendição não era pura em sua motivação. Mais uma vez eu tive que correr para Cristo por ajuda e perdão, em toda a minha indignidade.

(6) Apesar da atividade da fé, o livramento de Deus é frequentemente uma maravilhosa surpresa. Enquanto eu esperava que as enfermeiras voltassem à sala de espera e dissessem, “Você precisará ainda de mais cirurgia de retirada”, elas vieram e disseram, “Agora você pode ir para a cirurgia plástica!”. Eu estava tão surpreso que eu tive que pedir para ela repetir o que tinha dito. A bondade de Deus me surpreendeu extraordinariamente, apesar de saber que o caminho diante de nós não seria fácil.

(7) A meditação em Cristo é, de longe, a nossa mais importante ajuda nos dias de aflição. O fato de que Ele sofreu e morreu por mim e que está sempre intercedendo por mim, me permite nunca estar distante da sua perfeita visão como meu sumo sacerdote, e tendo Ele planos e objetivos perfeitos para mim, assim como os de me apartar deste mundo e me amadurecer para a glória, ajuda mais do que tudo, a tornar o meu pensamento cativo e submisso neste dia, mais do que qualquer outra coisa. O pensamento mais útil de todos foi este: se Cristo foi submisso ao passar por mim, um pecador sem merecimento, sofrimentos muito piores do que os meus, por que não deveria eu ser submisso a Ele quando sua providência está conduzindo-me através das provações, para a sua glória e para o meu bem?

(8) Uma esposa temente a Deus para apoiá-lo e ajudá-lo a orar no seu caminho, no dia das cirurgias, é uma dádiva inestimável. As orações da minha Rainha comigo, através das ondas de desapontamento do dia, junto com os seus comentários constantes, “Tudo ficará bem, querido”, e, “Deus irá ajudá-lo através de tudo isto”, tiveram mais significado para mim do que os sermões, naquele momento.

(9) As orações dos crentes também são um suporte extraordinário, tanto pessoalmente quanto através de mídia eletrônica, particularmente quando eles rapidamente enfatizam uma ou duas das doces e poderosas promessas de Deus. A cada vez que voltávamos para a sala de espera, depois de outra camada de câncer ter sido removida, nós orávamos, meditávamos, e então abríamos o e-mail e o facebook, para encontrar novas orações esperando por nós. O amor e a ajuda que nós recebemos disto — frequentemente vindo de pessoas que eu visitei frequentemente em tempo de necessidade — está além das palavras. A comunhão dos santos é doce.

(10) A comunicação amável, calorosa e objetiva são ajudas humanas significativas, em momentos de aflição. Em ambos os ofícios, os médicos e as enfermeiras mostraram notável bondade e empatia enquanto falavam comigo. A sua comunicação clara e honesta também foi de grande ajuda. Por exemplo, imediatamente antes de eu ir para a cirurgia, a minha cirurgiã plástica, com quem eu tinha me encontrado apenas uma vez anteriormente, assegurou-me que, embora o procedimento de sutura fosse necessário e desagradável, ela já tinha feito um grande número destes procedimentos e acreditava que tudo terminaria bem, a longo prazo. Ela fez um excelente trabalho de encorajamento fazendo-me meditar nos benefícios a longo prazo, ao invés do desconforto a curto prazo. Ela também, alegremente permitiu-me orar por ela e me agradeceu calorosamente por isso. Depois da cirurgia, ela foi novamente muito tranquilizadora, e me disse exatamente o que esperar e deixou bem claro que ela estaria disponível a qualquer hora e momento para lidar com quaisquer complicações que pudessem surgir.

Em conclusão, deixe-me dizer que é bom para um ministro da palavra estar no pós-operatório. Nas últimas quatro décadas eu tive o privilégio de visitar mais de 5.000 paroquianos no hospital. Estar no pós-operatório como paciente faz alguém perceber mais nitidamente do que nunca como são importantes os modos, a postura e as palavras usadas nas orações por parte dos médicos, pastores e enfermeiras.
Isto também me conduz a um respeito e amor renovados por aqueles que tiveram que enfrentar doenças mais sérias e ameaçadoras e a refletir no seu consentimento. As suas provações acabaram nos fazendo enfrentar a nossa própria mortalidade e a necessidade de preparação para encontrar com o nosso Deus.
Bem, a rotina alternada de compressas de gelo durante vinte minutos nos próximos dias, devem me conceder mais tempo para reflexão, mas eu rogo para que estas 10 reflexões possam ser úteis, de alguma forma, para todos nós.

(Tradução do texto em formato PDF neste link)

10 de dez de 2015

Institutas 34

“… Como o tema da predestinação é de certa forma obscuro em si, a curiosidade dos homens o torna muito perigoso, porque o intelecto humano não se pode refrear, nem, por mais limites e termos que se lhe assinalem, deter-se para não se extraviar por caminhos proibidos e elevar-se com o afã, se lhe fosse possível, de não deixar segredo de Deus sem resolver e esquadrinhar… A primeira coisa é que se lembrem de que, quando querem saber os segredos da predestinação, penetram no santuário da sabedoria divina, no qual todo aquele que entra com ousadia não encontra como satisfazer sua curiosidade e mete-se num labirinto do qual não pode sair… Os segredos da sua vontade que determinou nos fossem comunicados, no-los manifestou em sua Palavra...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXI, parágrafo 1)

“'Chegamos ao caminho da fé', diz Agostinho, 'nele permaneçamos constantemente. Ele nos leva até a habitação do Rei, na qual todos os tesouros da ciência e da sabedoria estão escondidos. Porque o Senhor Jesus não tinha inveja dos discípulos que havia exaltado a tão grande dignidade, quando lhes dizia:”Ainda tenho muitas coisas que dizer-vos, mas agora não as podeis ouvir” (João 16:12). É preciso que caminhemos, que aproveitemos, que cresçamos, para que nossos corações sejam capazes daquelas coisas que no presente não podemos entender. E se o último dia nos encontrar aproveitando, lá fora deste mundo aprenderemos o que não pudemos entender aqui.' [Agostinho, In Ioh. Tract. 53, 7 MSL 35, 1777]”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXI, parágrafo 2)

“… Porque a Escritura é a escola do Espírito Santo, na qual nem se deixou de por coisa alguma necessária e útil de conhecer, tampouco se ensina mais do que o é preciso saber… Permitamos ao cristão, portanto, que abra seus ouvidos e seu intelecto a todo raciocínio e às palavras que Deus quis lhe dizer, contanto que o cristão use tal temperança e sobriedade, que, tão logo veja que o Senhor fechou sua boca sagrada, pare ele também e não leve adiante sua curiosidade, fazendo novas perguntas. Tal é o limite da sobriedade que temos de guardar: que, ao aprender, sigamos a Deus, deixando-o falar primeiro; e, se o Senhor deixa de falar, tampouco nós queiramos saber mais ou passar adiante...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXI, parágrafo 3)

“… Jacó e Esaú eram irmãos, gerados de mesmo pai e mesma mãe, e até encerrados no mesmo útero materno antes de nascer. Em todas essas coisas eram iguais; e, no entanto, Deus fez grande diferença entre eles, porque escolheu um e rechaçou o outro. Não existia nenhuma razão para que um fosse preferido ao outro, exceto a primogenitura; mas nem isso se teve em conta, e deu-se ao mais novo o que se negou ao mais velho. Parece que Deus menosprezou a primogenitura em outros casos, a fim de tirar da carne toda ocasião de vangloriar-se; tendo rejeitado a Ismael, Deus pôs seu coração em Isaque; tendo rebaixado Manassés, preferiu Efraim.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXII, parágrafo 5)

“… Jacó é, pois, eleito; e Esaú, rejeitado; e são diferenciados pela predestinação de Deus aqueles entre os quais não existia diferença alguma quanto aos méritos. Se se desejar saber a causa, é a que aponta o apóstolo: que 'foi dito a Moisés: “Terei misericórdia daquele de que eu tenha misericórdia e compadecer-me-ei daquele de quem eu me compadeça” (Romanos 9:15)'. Pergunto eu: que isso significa? Sem dúvida, o Senhor assegura que não existe entre os homens nenhum outro motivo para que lhes outorgue benefícios senão sua pura misericórdia...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXII, parágrafo 6)

“… E, em outro lugar, depois de ter demonstrado que o homem não tem mérito algum antes de sua eleição, [Agostinho] diz: 'Certamente, não tem lugar aqui o vão argumento daqueles que defendem a presciência de Deus contra sua graça, assegurando que fomos eleitos antes da criação do mundo porque Deus soube que seríamos bons, e não porque Ele nos fazia tais. Não fala dessa maneira aquele que diz: “Não me escolhestes a mim, mas eu vos escolhi a vós” (João 15:16). Porque, se Ele nos houvesse escolhido porque sabia que seríamos bons, teria sabido também que nós havíamos de escolhê-lo.' [Agostinho, In Ioh. Tract. 86, 2 MSL 35, 1851]… Por isso, mantém-se verdadeiro o que Agostinho diz em outro lugar, que 'a graça de Deus não encontra aqueles que devem ser eleitos, mas os faz' [Agostinho, Ep. 186, 5, 15 (ad Paulinum) MSL 33, 821; CSEL 57, 17].”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXII, parágrafo 8)

“… Baste, pois, por enquanto que, embora a voz do Evangelho chame a todos em geral, o dom da fé, no entanto, é muito raro. Isaías fornece a causa: que não a todos é manifestado o braço de Deus (Isaías 53:1)… Se perguntarem com que finalidade Deus chama a si aqueles que Ele sabe que não irão, Agostinho responde por mim: 'Queres disputar comigo? Antes maravilha-te comigo e exclama: Ó Alteza! Concordemos ambos no temor, para que não pareçamos no erro' [Agostinho, Serm. 26,12,13 MSL 38, 177]… Eis um grande e secreto conselho, que nos foi revelado: o Senhor sabe quem são os seus; mas Ele não permite que ninguém entenda esse mistério, exceto aqueles que Ele soube de antemão e predestinou como seus (Romanos 8:29) [Bernardus Clarav., Ep. 107, 4 MSL 182, 244]. E pouco depois conclui: 'A misericórdia de Deus para com aqueles que o temem é de eternidade em eternidade: de eternidade pela predestinação, em eternidade pela bem-aventurança; uma não tem princípio, e a outra jamais terá fim' [Bernardus Clarav., Ep. 107, 5 MSL 182, 245]...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXII, parágrafo 10)

“… Porque de tal maneira é a vontade de Deus, a suprema e infalível regra da justiça, que tudo o que ela quer, só pelo fato de querê-lo, deve ser considerado justo. Por isso, quando se pergunta pela causa de que Deus o fez assim, devemos responder: porque quis [Agostinho, De Genesi contra Manichaeos I 2,4 MSL 34, 175]. Pois se se insiste perguntando por que quis, com isso se busca algo superior e mais excelente que a vontade de Deus; o que é impossível de achar. Refreie-se, pois, a temeridade humana, e não busque o que não existe, antes que não ache o que existe. Este, pois, é um freio excelente para reter a todos aqueles que queiram meditar com reverência os segredos de Deus… Não imaginamos um Deus sem lei, uma vez que Ele é sua própria lei; pois, como diz Platão, os homens, por estar sujeitos aos maus desejos, têm necessidade da lei; mas a vontade de Deus, que não somente é pura e está limpa de todo vício, mas que além disso é a regra suprema da perfeição, é a lei de todas as leis...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXIII, parágrafo 2)

“Venha, pois, agora, algum maniqueu ou celestino e calunie a providência de Deus. Eu afirmo, como Paulo, que não devemos dar razão dela, pois, com sua grandeza, sobrepuja nossa capacidade. Por que maravilhar-se? Que há de estranho nisso? Pretenderão que a potência de Deus seja limitada de tal maneira que não possa fazer mais do que nosso intelecto possa compreender?… Porque quem sois vós, pobres e míseros homens, para formular artigos contra Deus e acusá-lo pelo único motivo de que não se presta a rebaixar a grandeza de suas obras de acordo com vossa rudeza e pouca capacidade? Como se as obras e Deus fossem más, porque a carne não as compreende!…
… [Agostinho] diz: 'tu, homem, esperas minha resposta, mas eu também sou homem como tu. Portanto, ouçamos ambos ao que nos diz: ó homem, que és? [Agostinho, Serm., 28 c.3, 4 MSL 37, 179]... É melhor uma ignorância fiel que uma ciência temerária [Ibidem, c.6, 6 MSL 37, 181]... Busca méritos; não acharás senão castigos. Ó profundidade! Pedro nega a Cristo; o ladrão crê nele. Ó profundidade! Desejas saber a razão? Eu me sentirei sobrepujado por tanta alteza. Raciocina tu quanto quiseres; eu me maravilharei; disputa tu; eu crerei. Vejo a alteza; à profundidade não chego. Paulo deu-se por satisfeito em admirar. Ele afirma que os desígnios de Deus são inescrutáveis. E tu vais esquadrinhá-los? Ele diz que os caminhos de Deus não se podem investigar, e tu os queres conhecer? [Agostinho, Serm., 28 c.7, 7 MSL 37, 182]'”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXIII, parágrafo 5)

“… E não há de parecer absurda minha afirmação de que Deus não somente previu a queda do primeiro homem e com ela a ruína de toda a sua posteridade, mas que assim o ordenou. Porque assim como pertence a sua sabedoria saber tudo o que há de acontecer antes que ocorra, assim também pertence à sua potência reger e governar com sua mão todas as coisas. Agostinho trata desta questão muito bem e, como todas as demais, a resolve muito atinadamente, dizendo: 'saudavelmente confessamos o que retissimamente cremos, que Deus, que é Senhor de todas as coisas, e que a todas criou boas, e previu que o mal surgiria do bom, e soube que a sua onipotente bondade lhe convinha mais converter o mal em bem do que não permitir que o mal existisse, ordenou de tal maneira a vida dos anjos e dos homens que primeiro quis mostrar as forças do livre-arbítrio, e depois o que podia o benefício de sua graça e justo juízo'.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXIII, parágrafo 7)

“… Ademais, sua perdição de tal maneira depende da predestinação de Deus que ao mesmo tempo há de haver neles causa e matéria dela. O primeiro homem caiu porque assim Deus o havia ordenado; mas por que foi ordenado, não o sabemos. Mas sabemos com certeza que Ele o ordenou assim porque via que com isso seu Nome seria glorificado. Ao ouvir falar de glória, pensemos ao mesmo tempo em sua justiça; pois é necessário que seja justo o que é digno de ser louvado. Cai, pois, o homem, quando assim o ordena a providência de Deus; mas cai por sua culpa. Pouco antes havia declarado o Senhor que tudo quanto havia feito era 'bom em grande maneira' (Gênesis 1:31). De onde, pois, lhe veio ao homem aquela maldade pela qual se afastou de seu Deus? Para que não pensasse que lhe vinha de sua criação, o Senhor, com seu próprio testemunho, havia aprovado tudo quanto havia posto nele. O homem, pois, é quem por sua própria malícia corrompeu a boa natureza que havia recebido de Deus; e, com sua queda, trouxe a ruína a toda a sua posteridade. Por isso, contemplemos antes na natureza corrompida dos homens a causa de sua condenação, que é de todo evidente, em vez de buscá-la na predestinação de Deus, na que está oculta e que é de todo incompreensível. E não levemos a mal submeter nosso intelecto à imensa sabedoria de Deus, e que se lhe submeta em muitos segredos. Porque nas coisas não-lícitas e que não é possível saber, a ignorância é sabedoria e o desejo de sabê-las, uma espécie de loucura.
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXIII, parágrafo 8)

“… [Agostinho]: 'que Deus dê àqueles que reprovou o castigo que merecem, e aos que escolheu, a graça que não merecem, se pode mostrar que é justo e irrepreensível pelo exemplo de um credor, ao qual lhe é lícito perdoar a dívida de um e exigi-la de outro' [Pseudo-Aug., De praedestinatione et gratia c.3 MSL 15, 1667]. Assim, o Senhor pode muito bem dar sua graça aos que queira, porque é misericordioso; e não a dar a todos, porque é juiz justo. 'Em dar a uns a graça que não merecem, mostra sua graça gratuita; e, ao não a dar a todos, mostra o que todos merecem' [Agostinho, De dono perseverantiae 12, 28 MSL 45, 1009s]”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXIII, parágrafo 11)

“… [Agostinho]: '… Antes, aconteça o que acontecer, deve-se pregar, para que aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça. E quem os tem, se não os recebeu daquele que promete dá-los? Assim, pois, aquele que não recebeu tal dom, que rejeite a boa doutrina, contanto que aquele que o recebeu tome e beba, beba e viva. Porque, sendo necessário pregar as boas obras para que Deus seja servido como convém, também se deve pregar a predestinação, para que aquele que tem ouvidos se glorie da graça de Deus em Deus, e não em si mesmo' [Agostinho, De dono perseverantiae, 20, 51 col. 1025].”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXIII, parágrafo 13)

“Como este santo homem [se referindo a Agostinho] tinha um singular zelo e desejo de edificar as almas, tem o cuidado, entretanto, de moderar a maneira de ensinar a verdade, de tal forma que se guarda com grande prudência na medida do possível, para não escandalizar ninguém; pois nota que a verdade se pode dizer também com grande proveito. Se alguém falasse ao povo desta maneira: se não crerdes, é porque Deus vos predestinou já p ara condenar-vos; este não só alimentaria a negligência, mas também a malícia. E se alguém fosse além e dissesse a seus ouvintes que nem no futuro haveriam de crer por estar já reprovados, isto seria imprecação, em vez de doutrina… E pouco depois [Agostinho]: 'quando os homens, por meio da correção, voltam ao caminho da justiça, quem é que obra a salvação em seus corações, senão Aquele que dá o crescimento, seja um ou outro o que plante e o que regue? Quando a Deus lhe apraz salvar um homem, não há livre-arbítrio de homem que lho impeça e resista' [Agostinho, De correptione et gratia 5, 8 MSL 44, 920]… E também [Agostinho]: 'quando Ele quer atrair os homens, acaso os ata com ligaduras corporais? Age interiormente; interiormente retém os corações; interiormente move os corações e atrai os homens com a vontade que formou neles' [Ibidem, 14, 45, col. 944]…
… Sobretudo, não se pode omitir de maneira nenhuma o que [Agostinho] acrescenta em seguida: 'que como nós não sabemos quem são os que pertencem ou deixam de pertencer ao número e companhia dos predestinados, devemos ter tal afeto que desejemos que todos se salvem; e, assim, procuraremos fazer todos aqueles que encontrarmos partícipes de nossa paz. No mais, nossa paz não repousará senão nos que são filhos da paz' [Ibidem, 15, 46, col. 944s]...
… Em conclusão: nosso dever é usar, tanto quanto nos for possível, de uma correção saudável e severa, à maneira de medicina; e isto para com todos, a fim de que não se percam e não percam os outros; mas a Deus lhe corresponde fazer que nossa correção aproveite àqueles que Ele predestinou.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXIII, parágrafo 14)