17 de dez de 2015

Institutas 35

“… Mas é falsa sua opinião de que a eleição só começa a ser eficaz quando abraçamos o Evangelho, e que daqui toma toda sua força e vigor. É verdade que, no que nos diz respeito, recebemos do Evangelho a certeza da mesma; porque, se tentássemos penetrar no decreto eterno e na ordenação de Deus, aquele profundo abismo nos tragaria. Mas, depois de que Deus nos manifestou e deu a entender que somos seus eleitos, é necessário que subamos mais alto, para que o efeito não sufoque sua causa. Porque que há de mais absurdo e (irrazoável) que, quando a Escritura nos ensina e afirma que Deus nos iluminou à medida que nos elegeu, esta claridade cegue de tal maneira nossos olhos que nos recusemos a olhar para nossa eleição?… Devemos, pois refrear esta temeridade com a sobriedade da fé, para que Deus nos seja testemunha suficiente de sua graça oculta, que nos revela em sua palavra; contanto que este canal, pelo que corre a água em grande abundância para que bebamos dela, não impeça que a verdadeira fonte tenha a honra que lhe é devida.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXIV, parágrafo 3)

10 de dez de 2015

Institutas 34

“… Como o tema da predestinação é de certa forma obscuro em si, a curiosidade dos homens o torna muito perigoso, porque o intelecto humano não se pode refrear, nem, por mais limites e termos que se lhe assinalem, deter-se para não se extraviar por caminhos proibidos e elevar-se com o afã, se lhe fosse possível, de não deixar segredo de Deus sem resolver e esquadrinhar… A primeira coisa é que se lembrem de que, quando querem saber os segredos da predestinação, penetram no santuário da sabedoria divina, no qual todo aquele que entra com ousadia não encontra como satisfazer sua curiosidade e mete-se num labirinto do qual não pode sair… Os segredos da sua vontade que determinou nos fossem comunicados, no-los manifestou em sua Palavra...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXI, parágrafo 1)

9 de dez de 2015

Aprendizado piedoso 115

Tradução de uma oração feita pelo Dr. Joel Beeke na Casa Legislativa do Estado de Michigan:

"Deus Altíssimo, nós Te agradecemos por ser o Deus vivo e triuno. Nos permita conhecer a Tua grandeza e sentir a nossa pequenez. O Teu reino é um reino eterno, e o Teu domínio é de geração em geração. Tu dominas sobre o reino da humanidade; os poderes que existem são Teus servos para o bem da humanidade.
Portanto, Pai celestial, eu te agradeço por esta Legislatura do Estado, e oro para que Tu conceda-lhes, em tudo o que eles fazem, o santo temor do Teu Nome, estimando os Teus sorrisos e olhares severos, mais do que os sorrisos e olhares severos dos homens. Guia-os em todas as decisões que eles tomam; os conceda sabedoria – sabedoria celestial, acima e além da sua própria. Ajude-os a servi a Ti a aos outros, como homens e mulheres da verdade, da justiça e do amor. Faça-os odiar o pecado e honrar ao Teu Filho, o Rei dos reis e Senhor dos senhores. Conduza-os a perseguir e promover a justiça espiritual, moral e fiscal. Concede-lhes a coragem e a sabedoria para mostrar misericórdia para com os necessitados e para defender os indefesos. Preencha-os com um oceano abundante de compaixão. Permita que o reino de amor seja o seu propósito, e a lei do amor seja a sua regra. Faça-os lutar para serem homens e mulheres de Deus, bem conhecidos por sua integridade; Permita-os serem honrados pela sua bondade, por meio das pessoas que os elegem.
Senhor, vivemos em dias conturbados, em que o pecado é propagado, onde muitas pessoas parecem fazer o que é certo aos seus próprios olhos, ao invés do que é certo aos Teus olhos, em relação aos assuntos relacionados à santidade de vida e as estruturas fundamentais da nossa sociedade. Ó, Senhor, livra-nos de percorrer o nosso próprio caminho. Ajuda-nos a nos humilhar diante de Ti, a arrependermo-nos dos pecados e nos voltar a Ti, pois Tu prometestes que se nos arrependêssemos, Tu nos ouviria dos céus, perdoaria os nossos pecados, e curaria a nossa terra. Lava todas as nossas fraquezas e pecados no sangue expiatório de Cristo. Ajude-nos, a todos, a lembrar que Tu, Ó Deus, és o Juiz de toda a terra. Permita-nos, portanto, encontrar a misericórdia do Teu Filho, quando Ele voltar para julgar os vivos e os mortos. Em nome de Cristo, nós oramos. Amém."


13 de nov de 2015

Aprendizado piedoso 114

O arrependimento

O arrependimento é uma graça do Espírito de Deus, através do qual um pecador é internamente humilhado e visivelmente reformado...
...Em Adão, todos sofreram naufrágio; o arrependimento é a única prancha ou tábua de salvação, na qual podemos nadar para o céu...
...O verdadeiro arrependimento pelos pecados está presente quando os atos de pecado cessam, por causa da infusão de um princípio de graça, através do Espírito, assim como se o ar deixasse de ser escuro, por causa de uma infusão de luz...
...Não é possível remar para o paraíso, exceto através do regato de lágrimas do arrependimento...

*Trecho traduzido de: The Reformation Heritage KJV Study Bible, Joel R. Beeke (editor geral), Reformation Heritage Books (RHB), Grand Rapids, Michigan, 2014, “List of In-Text Articles”. http://kjvstudybible.org
**Adaptado à partir da obra “The Doctrine of Repentance”, de Thomas Watson (1620–1686).

31 de out de 2015

dia 31 de outubro - celebração da Reforma Protestante

No dia 31 de outubro é celebrada a Reforma Protestante, pois foi o dia em que Martinho Lutero, em 1517, expôs na porta da catedral de Wittenberg (Alemanha), suas 95 teses.
Um dos assuntos centrais, senão o assunto principal desta grande transformação histórica na igreja de Cristo, foi sem dúvida, a "A justificação somente pela fé":

[Em Gálatas 2:16, Paulo vai direto ao coração do que significa ser um Cristão: “temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei”. Paulo está citando a maior de todas as promessas de Deus. Ele prometeu o perdão dos pecados para todos aqueles que verdadeiramente crerem somente em Jesus Cristo para a salvação, libertando-os de toda a culpa, e imputando a eles a justiça perfeita de Cristo, como uma cobertura para todas as suas enfermidades e pecados remanescentes. Sendo pessoas justificadas, eles são justos, em Cristo, diante de Deus, e herdeiros da vida eterna.
Esta doutrina é tão antiga quanto a Bíblia. Abrão “creu no SENHOR, e isso lhe foi imputado para justiça” (Gênesis 15:6). Davi declarou: “ Bem-aventurado aquele cuja iniquidade é perdoada, cujo pecado é coberto. Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não atribui iniquidade” (Salmos 32:1-2). Isaías registra a promessa de Deus: “o meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si” (Isaías 53:11). Ainda, a Palavra de Deus para Habacuque foi “o justo viverá pela sua fé” (Habacuque 2:4)... 
...Esta doutrina foi ensinada por todos os apóstolos, mas coube a Paulo expô-la detalhadamente em suas epístolas.
Nos séculos seguintes, a igreja Cristã veio a equiparar a justificação com a santificação, afirmando que um pecador tinha que buscar a justificação, aderindo a um regime severo de penitência, e auxiliado por infusões de graça através dos sacramentos. O objetivo não foi tanto o de justificação, mas o de purgação, ou limpeza dos pecados. Reconhecendo que a conquista deste objetivo, nesta vida, estava além das habilidades da maioria das pessoas – na realidade, é claro, de todas as pessoas – a igreja pré-Reforma prorrogou o caminho da penitência e da purificação para a próxima vida. Ela reduziu o perdão a uma mercadoria, na forma de perdões eclesiásticos, ou “indulgências”, que eram vendidas por agentes especiais conhecidos como “perdoadores”.
Um destes agentes, Johann Tetzel (1465-1519), comumente bradava “Assim que a moeda cair no fundo do cofre, a alma salta do purgatório!” (“As soon as the coin in the moneybox rings, the soul from Purgatory springs!”, rimando em inglês). Em 1517, Martinho Lutero respondeu com as suas “Noventa e Cinco Teses”, combatendo o sistema de penitência e a venda de indulgências ou perdões. Lutero passou a reafirmar a doutrina bíblica da justificação somente pela fé em Cristo, como o grito de guerra da Reforma.
A justificação é a dádiva gratuita de Deus para todos aqueles que creem em Jesus Cristo como o único Salvador, encontrando Nele todas as coisas necessárias para a sua salvação. Não é exigido nada de nós, exceto a fé. A extensão é para todos os pecados, exceto para o pecado da descrença, e depende completamente do que Cristo é e do que Ele fez, e não depende de nada em nós...
...A fé que justifica não é uma fé morta, mas é sempre acompanhada por graças tais como a autonegação, o arrependimento, e a gratidão a Deus, e sempre produz frutos na forma de boas obras feitas em conformidade com a lei de Deus, e para a Sua glória. Paulo concorda com Tiago que uma fé sem tais graças e frutos é uma fé morta, que não consegue justificar um pecador...]

"fides viva"

"Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie" (Efésios 2:8-9)

Muito obrigado, Senhor, por ter vivificado o coração e a mente de homens como Martinho Lutero, João Calvino, Ulrich Zwinglio, Martin Bucer, dentre outros, conhecidos ou anônimos, para o grande avivamento que o Senhor proporcionou à Tua igreja, conhecido historicamente como a Reforma Protestante. 
A Ti, toda a glória, agora e para todo o sempre!

Fontes:
1) Trechos traduzidos de ["Justification by Faith Alone"], The Reformation Heritage KJV Study Bible, Joel R. Beeke (editor geral), Reformation Heritage Books (RHB), Grand Rapids, Michigan, 2014, “List of In-Text Articles”.
(http://kjvstudybible.org)

28 de out de 2015

Aprendizado piedoso 113

“A graça justificadora é o compromisso amoroso e, por nós, imerecido de Deus, para nos resgatar da Sua ira e do Seu julgamento. Em Cristo, Deus nos liberta do pecado e nos transporta para o Seu amoroso reino de perdão. A graça justificadora nos chama a confiar em Cristo como o nosso salvador, aquele que tomou sobre Si mesmo os nossos pecados e o justo julgamento. Quando confiamos em Cristo, por fé, a sua obra de perdão começa, nos liberando de nossa dívida de pecado, transformando nossos corações, e libertando-nos, para vivermos para Ele. Quando olhamos para Cristo, em fé, e cremos que a sua morte foi a nossa morte, e que a sua punição foi o nosso julgamento, nós recebemos a Sua justiça, pela graça de Deus. Esta declaração de justiça é forense, no sentido em que as queixas ou acusações legais contra nós foram retiradas, e nós fomos declarados justos e retos, diante de Deus. Sermos declarados como justos significa receber uma condição legal de termos sido perdoados, e não mais passíveis de punição.”
(John Stott)

23 de out de 2015

Aprendizado piedoso 112

“Quereis também vós outros retirar-vos?”
(João 6:67)
C. H. Spurgeon

Muitos têm abandonado a Cristo, e não tem andado mais com Ele; mas qual razão VOCÊ tem para esta mudança? Houve alguma razão para isto no passado? Jesus não provou a Si mesmo como suficiente para tudo? Ele faz um apelo para você esta manhã: “Eu tenho sido um deserto para você?” Quando a sua alma simplesmente confiou em Jesus, você já foi alguma vez confundido? Até agora, você não encontrou o seu Senhor sendo um amigo compassivo e generoso com você, e a simples fé Nele não lhe concedeu toda a paz que o seu espírito poderia desejar? Você poderia sonhar com um amigo melhor do que Ele tem sido para você? Portanto, não mude o antigo e tente pelo falso novo. Quanto ao presente, ele pode compeli-lo a deixar a Cristo? Quando nós estamos duramente atormentados por este mundo, ou com as rigorosas provações dentro da Igreja, nós sabemos que a coisa mais abençoada é deitar a nossa cabeça no peito do nosso Salvador. Esta é a alegria que nós temos hoje, que estamos salvos Nele; e se esta alegria é satisfatória, pelo que deveríamos pensar em mudar? Quem barganharia ouro por escória? Não vamos renegar ao sol, até encontrarmos uma luz melhor, nem deixar o nosso Senhor, até um amor mais brilhante aparecer; contudo, como isto pode nunca acontecer, nós iremos nos agarrar a Ele com um abraço imortal, e vincular o Seu nome como um selo sobre o nosso braço. Quanto ao futuro, você pode sugerir qualquer coisa que possa surgir e necessariamente fazê-lo amotinar-se, ou abandonar a velha bandeira, para servir a outro capitão? Nós acreditamos que não. Se a vida for longa, Ele não muda em nada. Se somos pobres, o que é melhor do que ter a Cristo, que pode nos tornar ricos? Quando estamos doentes, o que mais queremos além de Jesus, para cuidar de nós na nossa doença? Quando nós morremos, não está escrito que “nem a morte, nem a vida, nem as coisas do presente, nem as do porvir, podem nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor”? Portanto, nos juntamos a Pedro para dizer: “Senhor, para quem iremos?” [João 6:68].

Aquivo em PDF neste link.

21 de out de 2015

Aprendizado piedoso 111

"Alegria é a resposta natural quando contemplamos a Deus. O que isto tem a ver com tédio? Pessoas alegres estão mobilizadas. Elas se alegram em realizar pequenas obediências. Elas tem prazer em servir a Deus de qualquer forma ordinária que julgarem oportunas. Elas também sabem que um exército de pessoas, exercendo pequenos passos de obediência, é o que move o reino de Deus para frente, em poder."
(Edward T. Welch)

6 de out de 2015

Aprendizado piedoso 110

Quando eu digo Eu sou um Cristão

Quando eu digo, “Eu sou um cristão”,
Não estou bradando, “Eu sou salvo!”...
Estou sussurrando, “Por vezes, me sinto perdido... Por isso sigo este caminho”...

Quando eu digo, “Eu sou um cristão”, 
Não falo com orgulho humano...
Estou confessando que tropeço e necessito que Deus seja o meu guia...

Quando eu digo, “Eu sou um cristão”,
Não estou tentando ser forte...
Estou professando que sou fraco e rogo por força para poder continuar...

Quando eu digo, “Eu sou um cristão”,
Não estou me gabando de sucesso...
Estou admitindo que sou falho e não posso pagar a dívida...

Quando eu digo, “Eu sou um cristão”,
Não acho que sou um sabe tudo…
Estou submetido à minha confusão, pedindo humildemente para ser ensinado...

Quando eu digo, “Eu sou um cristão”,
Não estou declarando ser perfeito...
Minhas falhas são demasiadamente visíveis, mas Deus acredita que eu valho a pena...

Quando eu digo, “Eu sou um cristão”,
Eu ainda sinto o aguilhão da dor...
Eu tenho a minha quota de angústia, e é por isso que busco o nome de Deus...

Quando eu digo, “Eu sou um cristão”
Não estou querendo julgar...
Eu não tenho autoridade...
Eu só sei que sou amado.


Tradução do poema "When I say I am a Christian", de Carol S. Wimmer (1988).
Arquivo PDF neste link.

3 de set de 2015

Aula "Qual é a sua cosmovisão?" (GEB-UPE)

Os slides (em PDF) para a aula "Qual é a sua cosmovisão? Você sabia que possui uma, mesmo talvez nem sabendo que possui uma?" (GEB-UPE) podem ser encontrados neste link.

17 de ago de 2015

Institutas 33

“… No que se refere à intercessão, vimos também que é ofício peculiar de Cristo e que nenhuma outra oração agrada a Deus senão aquela que esse Mediador santifica… Além disso, vê-se claramente que essa superstição ['a intercessão dos santos defuntos'] nasceu de uma certa incredulidade, porque ou não se deram por satisfeitos com que Cristo fosse o Mediador ou o despojaram por completo dessa honra...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 27)

“… Quanto ao sacrifício de louvor e ação de graças, não se pode fazer interrupção alguma nele sem ofendermos gravemente a divina majestade, já que Deus nunca cessa de acumular sobre nós benefícios sobre benefícios, para obrigar-nos dessa maneira a permanecer submetidos a Ele por gratidão, por mais torpes e preguiçosos que sejamos. Por fim, é tão grande e admirável sua magnificência para conosco que não temos nada que não esteja coberto com ela; tantos e tão grandes são seus milagres que, para onde quer que olhemos, jamais falta motivo suficiente para glorificá-lo e dar-lhe graças...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 28)

“… Mas, como o fim da oração, segundo expusemos antes, é elevar nosso espírito até Deus para bendizê-lo e pedir-lhe socorro, pode-se por isso compreender que o principal da oração radica no coração e no espírito; ou, melhor dizendo, que a oração propriamente não é senão esse afeto interno do coração que se manifesta diante de Deus, perscrutador de corações...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 29)

“… Claro que se o canto [louvor na forma musical] se acomoda à gravidade [seriedade ou reverência] que se deve ter diante do trono de Deus e dos anjos, não somente é um ornamento que confere maior graça e dignidade aos mistérios que celebramos mas serve, além disso, para incitar os corações e inflamá-los em maior afeto e fervor para orar. No entanto, guardemo-nos muito de que nossos ouvidos estejam mais atentos à melodia do que nosso coração ao sentido espiritual das palavras...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 32)

“… Platão, vendo a ignorância dos homens nas petições e súplicas que dirigiam a Deus, as quais muitas vezes não poderiam senão lhes causas grande dano, afirma que a mais perfeita maneira de orar é, segundo o formulou um poeta antigo, rogar a Deus que nos faça o bem, quer o peçamos ou não; e que afaste de nós o mal, mesmo quando nós o pedimos [Platão, Alcebíades II, 142E 143A].”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 34)

“[Calvino discorrendo sobre as petições da oração do 'Pai nosso', encontrada em: Mateus 6:9; Lucas 11:2]… E para dar-nos maior segurança de que, se somos cristãos, Ele é nosso Pai, não somente quis que o chamemos com esse nome mas também que o chamemos expressamente 'nosso', como se lhe disséssemos 'Pai, que és tão doce para com teus filhos e tão fácil em perdoar-lhes as faltas, nós, teus filhos, te chamamos e a ti dirigimos nossas súplicas, seguros e totalmente convencidos de que não há em ti mais afeto e vontade que os de um Pai, por mais indignos que sejamos de ti'. Mas como a pequenez de nosso coração não pode receber nem compreender tão infinito favor, Cristo nos serve de fiança e garantia de nossa adoção, e, além disso, dá seu Espírito como testemunho dessa adoção, pela qual nos é conferida a liberdade de invocá-lo: 'Abba, Pai!' (Gálatas 4:6). Assim, sempre que nossa preguiça e negligência nos opuserem dificuldades, lembremo-nos de suplicar-lhe que corrija a fraqueza que nos faz tímidos e nos dê como guia seu Espírito de magnanimidade, para que oremos a Ele ousadamente.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 37)

“… Porque, assim como todo aquele que, deveras e de coração, ama o pai de uma família ama também a todos os que a integram, da mesma maneira nós, se amamos a nosso Pai celestial e desejamos servir-lhe, precisamos mostrar nosso afeto e amor a seu povo, a sua família e a suas posses, que Ele honrou e a que chama plenitude de seu Filho Unigênito (Efésios 1:23)...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 38)

“[Calvino discorrendo sobre a quarta petição ('o pão nosso de cada dia dá-nos hoje') da oração do 'Pai nosso', encontrada em: Mateus 6:9; Lucas 11:2]… Por essa causa, somos mandados a pedir tão só o que se requer para satisfazer nossa necessidade durante a jornada, e com a confiança de que, tendo nosso Pai celestial nos mantido nesse dia, tampouco se esquecerá de nós no dia seguinte...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 44)

“[Calvino discorrendo sobre a quinta petição ('e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores') da oração do 'Pai nosso', encontrada em: Mateus 6:9; Lucas 11:2]… Finalmente, pedimos que essa remissão nos seja outorgada como nós perdoamos a nossos devedores, ou seja, como nós perdoamos todos aqueles que nos fizeram algum agravo ou injúria, seja de palavra ou de fato. Não que possamos perdoar a culpa do delito e da ofensa – pois isso compete só a Deus –, mas a remissão e perdão que temos de fazer consiste em arrancar voluntariamente de nosso coração toda ira, ódio e desejo de vingança, e esquecer em definitivo toda injúria e ofensa que nos tenham feito, sem guardar rancor contra ninguém...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 45)

“[Calvino discorrendo sobre a sexta petição ('e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal') da oração do 'Pai nosso', encontrada em: Mateus 6:9; Lucas 11:2]… As tentações são muitas e de diferentes tipos. Porque todos os maus pensamentos de nossa mente que nossa concupiscência suscita ou que o Demônio atiça, que nos induzem a transgredir a lei, são tentações; e as próprias coisas que em si não são más, no entanto, por arte e indústria de Satanás, convertem-se em tentações quando se nos põem diante dos olhos a fim de nos afastarem de Deus (Tiago 1:2,14; Mateus 4:1,3; 1Tessalonicenses 3:5). Destas últimas, umas estão à direita, outras à esquerda. À direita, as riquezas, o poder, a honra e outras semelhantes, que muitas vezes, sob a aparência de bem e majestade, cegam os olhos e enganam com seus ardis, para que, apanhados em tais astúcias e embriagados em sua doçura, esqueçam-se de Deus. À esquerda, coisas como a pobreza, a ignomínia, o desprezo, as aflições e outras desse tipo, com cuja aspereza e dificuldade se desalente, perca o ânimo e toda confiança e esperança, afastando-se finalmente por completo de Deus. Assim, pedimos nessa sexta petição a Deus, Nosso Pai, que não permita sermos vencidos pelas tentações que lutam contra nós, quer aquelas a que somos induzidos pela astúcia de Satanás; mas antes que, com sua mão, mantenha-nos e levante, para que, animados por seu esforço e virtude, possamos manter-nos firmes contra todos os assaltos de nosso maligno inimigo, sejam quais foram os pensamentos a que nos queira induzir. E também que transformemos em bem tudo aquilo que nos apresenta de uma parte ou de outra; quer dizer, que não nos ensoberbeçamos com a prosperidade, nem percamos o ânimo na adversidade. No entanto, não pedimos aqui que não sintamos tentação alguma, pois nos é muito necessário sermos estimulados por elas, para não dormirmos no ócio… Entendendo ao mesmo tempo que, se o Senhor está presente e combate por nós, faremos proezas sem nossas forças (Salmos 60:12)...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 46)

“… Em suma, concluamos que esta [se referindo à oração do 'Pai nosso'] é a doutrina da sabedoria de Deus, que ensinou o que quis e quis o que foi necessário.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 49)

“Se, tendo exercitado nossas almas para tal obediência [se referindo ao exercício da oração como 'uma espécie de disciplina e de aprendizagem de nossa fraqueza, com que se exercite e estimule o mais possível'], deixamo-nos reger pelas leis da providência divina, facilmente aprenderemos a perseverar na oração e, dominando nossos afetos com paciência, esperemos o Senhor, seguros de que, embora não se deixe ver, está no entanto sempre conosco e que, a seu tempo, mostrará que jamais esteve surdo a nossas orações, que aos homens pareciam ser rechaçadas… Porque muitas vezes podemos ver nos salmos como Davi e os demais fiéis, quando já quase cansados de orar, como que houvessem falado ao vento e que Deus, a quem suplicavam, estivesse surdo, nem por isso deixaram de orar (Salmos 22:2)...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 51)

“… 'E, se sabemos que ele nos ouve quanto ao que lhe pedimos, estamos certos de que obtemos os pedidos que lhe temos feito' (1 João 5:15). Embora pareçam supérfluas, essas palavra são, em realidade, uma declaração muito útil para advertir-nos de que Deus, mesmo quando não condescende conosco, dando-nos o que lhe pedimos, nem por isso nos deixa de ser propício e favorável, de maneira que nossa esperança, ao apoiar-se em sua Palavra, não será jamais confundida nem nos enganará. É tão necessário aos fiéis manter-se com essa paciência que, se não se apoiassem nela, não permaneceriam em pé. Porque o Senhor põe os seus à prova com experiências árduas; e não somente não os trata com delicadeza, mas muitas vezes até os põe em gravíssimos apertos e necessidades, e, assim abatidos, deixa-os afundar na lama por longo tempo, antes de dar-lhes certo o gosto de sua doçuraNo entanto, embora eles se apóiem na segurança da esperança que têm, apesar disso não deixam de orar; porque, se em nossa oração não há constância de perseverança, nossa oração nada vale.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 52)

10 de jul de 2015

Aprendizado piedoso 109

Quanto a ideia de que há, neste universo, um poder ou princípio pessoal que está em eterna oposição à Deus:

… A mente moderna pode descartá-la [esta ideia], mas isto não faz com que o próprio princípio do mal desapareça! Quando perguntado sobre como superar (ou sobrepujar) o diabo, Martinho Lutero respondeu: “Bem, quando ele [o diabo] vem batendo na porta do meu coração e pergunta 'Quem vive aqui?', o querido Senho Jesus vai à porta e fala 'Martinho Lutero costumava viver aqui, mas ele se mudou para outro lugar. Agora, Sou Eu quem vive aqui'. O Diabo, vendo as marcas de prego em Suas mãos, e o Seu lado traspassado, foge imediatamente”...

(Trecho extraído e traduzido de “Graham 2in1”, B. Graham, 2009)

7 de jul de 2015

Aprendizado piedoso 108

A maioria das pessoas pensa sobre sua própria morte como uma perspectiva temível, mas o título de um famoso sermão fúnebre puritano oferece uma alternativa agradável: "o último dia de um crente na terra é o seu melhor dia".
...
Quando Thomas Brooks [Puritano] pregou um sermão no funeral da Sra. Martha Randall, na Igreja de Cristo, em Londres, em 28 de junho de 1651, ele escolheu um título que é um golpe de gênio. Ao chamar o último dia de um crente na terra de "o seu melhor dia", Brooks demoliu, de uma vez, a visão convencional da morte como uma calamidade terrestre. O trecho a seguir reúne algumas passagens-chave do sermão.

A morte é o dia da coroação e o dia do casamento de um crente.

A morte é uma mudança de nossas imperfeitas e incompletas alegrias em Deus, para uma apreciação mais completa e perfeita dele. Como nenhum crente tem uma visão clara de Deus aqui, então nenhum crente tem uma visão completa e perfeita de Deus aqui. Em 26:14, quão pequena é a porção que se ouve Dele - falando de Deus - ah!, e quão pequena é a porção que se entende, desta que é ouvida! É uma excelente expressão que Agostinho usa: "As coisas gloriosas do céu são tantas, que ultrapassam os números; tão preciosas, que excedam estimativas; tão grandes, que excedam as medidas!" Bernardo diz: "Cristo estar com Paulo foi a maior segurança, mas Paulo estar estar com Cristo foi a felicidade suprema!"...

Quando a morte desfere o golpe fatal, haverá uma troca da terra pelo céu; de alegrias imperfeitas pelo perfeito deleite em Deus; em seguida, a alma deve ser absorvida com um pleno gozo de Deus; nenhum canto da alma deve ser deixado vazio, mas tudo deve ser preenchido com a plenitude de Deus. Aqui, neste mundo presente, eles recebem graça, mas no céu eles receberão glória. Deus guarda o melhor vinho para o fim [ver João 2:1-10]; o melhor de Deus, Cristo, e o céu, está além deste mundo presente. Aqui, temos alguns goles, algumas degustações de Deus; a plenitude é reservada para o estado glorioso. Aquele que vê a maior parte de Deus aqui na terra, não vê nada além de suas costas [ver Êxodo 33:18-23]; seu rosto é uma jóia de tal esplendor e glória, que nenhum olho pode ver, exceto somente um olho glorificado.

Até os melhores cristãos são capaz de apreciar apenas um pouco de Deus; seus corações são como a "botija" da viúva [ver 1Reis 17:12-16], que poderia conter apenas um pouco de óleo. O pecado, o mundo, e as criaturas ocupam tanto espaço nos melhores corações, que Deus concede a si mesmo pouco a pouco, como os pais concedem doces a seus filhos. Mas, no céu, Deus irá comunicar-se totalmente, de uma única vez, para a alma! A graça será então absorvida pela glória! ...

A morte é um outro Moisés: ela livra os crentes da escravidão, e de fazer tijolos no Egito. É um dia ou ano do jubileu [ver Levítico 25:10-15] para um espírito gracioso - o ano em que ele sairá livre de todos aqueles capatazes cruéis sob os quais eles gemiam... A morte é o dia da coroação e o dia do casamento de um crente. É um descanso do pecado, um descanso da tristeza, um descanso das aflições e das tentações, etc. A morte, para um crente, é uma entrada para o seio de Abraão [ver Lucas 16:22], para o paraíso, para a "Nova Jerusalém" [ver Apocalipse 21:2], no gozo do seu Senhor.

Cristãos! O que é toda a sua vida, senão um dia para se preparar para a hora da morte? Qual é o seu grande negócio [ou propósito?] neste mundo, senão o de se preparar e estar apto para o mundo eterno? Foi um triste discurso o de César Bórgia, que estando em seu leito de morte, disse: "Quando eu vivi, eu me preparei para tudo, exceto para a morte! Agora, eu devo morrer, e não estou preparado para morrer." Ah, cristãos! Vocês precisam orar todos os dias como Moisés: "Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio" Salmos 90:12 ...

Certifique-se de que Cristo seja o seu Senhor e Mestre,... e então o dia da sua morte lhe será como o dia da colheita para o agricultor, como o dia da libertação para o prisioneiro, como o dia da coroação para o rei, e como o dia do casamento para a noiva. O dia da sua morte será um dia de triunfo e exaltação, um dia de liberdade e de consolo, um dia de descanso e satisfação!

(Tradução de trechos de um artigo da revista Christianity Today, intitulado "O último dia de um crente, seu melhor dia", que pode ser encontrado neste link)


-------
Para se ter a perspectiva correta deste texto, em termos Bíblicos, sem esquecer que Deus é o Autor da Vida [ver Atos 3:15], portanto, é Ele quem concede a vida [ver Gênesis 2:7] e é Ele quem tira [ver Jó 1:18-22], lembremos do texto do apóstolo Paulo:

"Porque estou certo de que isto mesmo, pela vossa súplica e pela provisão do Espírito de Jesus Cristo, me redundará em libertação, segundo a minha ardente expectativa e esperança de que em nada serei envergonhado; antes, com toda a ousadia, como sempre, também agora, será Cristo engrandecido no meu corpo, quer pela vida, quer pela morte.
Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro.
Entretanto, se o viver na carne traz fruto para o meu trabalho, já não sei o que hei de escolher.
Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor.
Mas, por vossa causa, é mais necessário permanecer na carne.
E, convencido disto, estou certo de que ficarei e permanecerei com todos vós, para o vosso progresso e gozo da fé, a fim de que aumente, quanto a mim, o motivo de vos gloriardes em Cristo Jesus, pela minha presença, de novo, convosco."
(Filipenses 1:19-26, ênfases acrescentadas)

Link para o texto em PDF aqui.

26 de jun de 2015

Louvando a Deus (1)

Quando começo o dia quebrado, sei que vou terminar nos braços do meu Pai...

"Ouvi-me, ó casa de Jacó e todo o restante da casa de Israel; vós, a quem desde o nascimento carrego e levo nos braços desde o ventre materno. Até à vossa velhice, eu serei o mesmo e, ainda até às cãs, eu vos carregarei; já o tenho feito; levar-vos-ei, pois, carregar-vos-ei e vos salvarei" (Isaías 46:3-4).

Quando começo o dia altaneiro, sei que vou terminar nas cisternas rotas...

"Porque dois males cometeu o meu povo: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas" (Jeremias 2:13).

Presente gratuito verdadeiro

Quando compramos um relógio, talvez optemos pelo falso, cujo custo é inferior, assim como a sua qualidade.
Quando ganhamos um relógio de presente (gratuitamente), almejamos pelo verdadeiro (mais duradouro), não é mesmo?

Quando confiamos, durante as súplicas e orações, na mediação de um ser humano, optamos pelo falso, que parece mais próximo e acessível, pois é mais parecido conosco.
Quando confiamos na mediação do Senhor Jesus Cristo, optamos pelo verdadeiro (1Timóteo 2:5; Hebreus 8:6; 12:24).

Quando buscamos por salvação através das obras, cujo custo é inferior, ela é falsa, pois não podemos ser obedientes como Ele.
Quando buscamos por salvação pela graça gratuita, por meio da fé em Cristo, sem custo para nós (Ele pagou o preço por nós!!! 1Pedro 1:17-19), ela é verdadeira (Efésios 2:8-9).

Quando somos alcançados pela salvação através da obra necessária, suficiente e gratuita do Deus Triúno (Pai, Filho e Espírito Santo), além de ser verdadeira, ela é de qualidade superior (Hebreus 10:19-23), sendo mais duradoura (eterna!!!).

“Ah! Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite.
Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão, e o vosso suor, naquilo que não satisfaz? Ouvi-me atentamente, comei o que é bom e vos deleitareis com finos manjares.
Inclinai os ouvidos e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, que consiste nas fiéis misericórdias prometidas a Davi.
Eis que eu o dei por testemunho aos povos, como príncipe e governador dos povos.
Eis que chamarás a uma nação que não conheces, e uma nação que nunca te conheceu correrá para junto de ti, por amor do SENHOR, teu Deus, e do Santo de Israel, porque este te glorificou.
Buscai o SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto.
Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo, os seus pensamentos; converta-se ao SENHOR, que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar.
Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o SENHOR, porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos.
Porque, assim como descem a chuva e a neve dos céus e para lá não tornam, sem que primeiro reguem a terra, e a fecundem, e a façam brotar, para dar semente ao semeador e pão ao que come, assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei.
Saireis com alegria e em paz sereis guiados; os montes e os outeiros romperão em cânticos diante de vós, e todas as árvores do campo baterão palmas.
Em lugar do espinheiro, crescerá o cipreste, e em lugar da sarça crescerá a murta; e será isto glória para o SENHOR e memorial eterno, que jamais será extinto.”
(Isaías 55, ênfases acrescentadas)
 SDG



29 de mai de 2015

O que mudou, Senhor?

Ao refletir pela manhã, logo cedo, nos desafios para o dia de hoje, a seguinte sequência de pensamentos surgiu durante a oração:

- O que mudou no Seu amor no dia de hoje, Senhor?
Resposta: Nada mudou.
- O que mudou na Sua misericórdia no dia de hoje, Senhor?
Resposta: Nada mudou.
- O que mudou na Sua fidelidade no dia de hoje, Senhor?
Resposta: Nada mudou.
- O que mudou na Sua graça no dia de hoje, Senhor?
Resposta: Nada mudou.
- O que mudou na Sua onipotência no dia de hoje, Senhor?
Resposta: Nada mudou.
- O que mudou na Sua soberania no dia de hoje, Senhor?
Resposta: Nada mudou.
- O que mudou na Sua providência no dia de hoje, Senhor?
Resposta: Nada mudou.
- O que mudou no Seu plano de redenção no dia de hoje, Senhor?
Resposta: Nada mudou.
- O que mudou na Sua verdade no dia de hoje, Senhor?
Resposta: Nada mudou.
- O que mudou na Sua Palavra no dia de hoje, Senhor?
Resposta: Nada mudou.
- O que mudou no Senhor no dia de hoje, meu Deus?
Resposta: Absolutamente nada mudou no Deus triúno e absoluto.

Louvado Seja o Nosso Senhor Jesus Cristo!
Soli Deo Gloria (SDG)

25 de mai de 2015

Institutas 32

“… Tampouco é minha intenção – segundo já disse – citar todos os textos concernentes a esse propósito [Oração], mas somente colher alguns dos mais notáveis, para que, por eles, experimentemos quão gentilmente o Senhor nos convida a si e quão estreitamente encerrada se encontra nossa ingratidão sem poder escapar, já que nossa preguiça é tanta que, estimulada por tais convites, ainda fica imóvel. Portanto, ressoem sempre  em nossos ouvidos estas palavras: 'Perto está o Senhor de todos os que o invocam, de todos os que o invocam de verdade' (Sl. 145:18)… Recebemos este fruto singular das promessas de Deus: que não fazemos nossas orações com dúvidas e de forma apática, mas confiados na Palavra daquele cuja majestade de outra maneira nos aterraria; ousamos chamá-lo Pai, uma vez que Ele tem por bem nos ordenar que o invoquemos com esse suavíssimo nome. Só resta que nós, convidados pro tais exortações, persuadamo-nos de que temos motivos de sobra para ser ouvidos, quando nossas orações não se fundamentam nem se apoiam em nenhum mérito nosso, mas toda sua dignidade e a esperança de alcançar o que pedimos descansam nas promessas de Deus e delas depende… somente tenhamos sinceridade de coração, desgosto de nós mesmos, humildade e fé, a fim de que nossa hipocrisia não profane com uma falsa invocação o nome de Deus...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 14)

“… Dissemos que, ainda que a oração seja um colóquio familiar para Deus, os fiéis devem-se manter respeitosos e reverentes; não devem afrouxar as rédeas a qualquer desejo e pedir quanto se lhes ocorra, e não hão de desejar além do que Ele permite; assim, para não desprezar a majestade divina, devemos elevar ao alto nosso espírito, e, abandonando as p reocupações terrenas, honrá-lo pura e castamente. Com a integridade e a perfeição que se requer, isso não foi feito por ninguém de todos que já viveram neste mundo… E até Deus suporta nosso balbuciar e perdoa nossa ignorância e tolice quando algo se nos escapa involuntariamente; pois de fato não teríamos nenhuma liberdade para orar se Deus não condescendesse conosco…
… Ocorre-lhes o mesmo nas vezes em que seu espírito anda vagando de um lado a outro, e como que extraviado; é, pois, necessário que Deus também lhes perdoe isso, a fim de que suas orações – lânguidas, débeis e entrecortadas – não deixem de ser admitidas. Deus imprimiu naturalmente na mente dos homens o que as orações não são legítimas se nossa mente não está voltada para o alto. Daqui surgiu, como já dissemos, o gestual de alçar as mãos, que usado em todos os tempos e por todos os povos, perdura até o presente...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 16)

*** Observação: O “selo” (marca) de João Calvino é representado pelo desenho de um coração na palma da mão, junto com as palavras “Eu ofereço meu coração a Ti, Senhor, pronta e sinceramente”.
(Ver história do “selo” em http://www.calvin.edu/about/history/calvin-seal.html)


“Como não há homem algum digno de apresentar-se diante de Deus, o próprio Pai celestial, para fazer-nos perder o receito e ao mesmo tempo o temor que poderia abater nosso ânimo, deu-nos seu Filho, Jesus Cristo Nosso Senhor, como Advogado e Mediador (1Tm. 2:5; 1Jo. 2:1), por cuja majestade e orientação podemos chegar ao Pai com segurança, apoiados na certeza de que coisa alguma pedida em nome do Filho nos seja negada, uma vez que o Pai nada lhe pode negar. E a isso se deve referir tudo quanto ensinamos sobre a fé até aqui. Porque, como a promessa nos mostra Jesus Cristo como nosso Mediador, se a esperança de alcançar o que pedimos não se fundamenta sobre Ele, priva-se do direito de orar. Pois, tão logo se nos apresenta a terrível majestade de Deus, não podemos senão nos aterrar, e o conhecimento de nossa própria indignidade nos rechaça muito longe, até que Jesus Cristo nos vem ao encontro para transformar o trono de glória aterradora em trono de graça, como o apóstolo nos exorta a aproximarmo-nos 'seguros e confiantes, do trono da graça, para alcançarmos misericórdia e encontrarmos a graça do socorro no momento oportuno' (Hb. 4:16)...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 17)

“… E quando, em outro lugar, chama-o de único Mediador entre Deus e os homens (1Tm. 2:5), porventura não o faz tendo em conta as orações que pouco antes mencionara? Porque, depois de dizer que se deve orar a Deus por todos os homens, em seguida, para confirmar a sentença, acrescenta que há só um Deus e um só Mediador para dar o acesso a Ele por todos os homens. Não de outra forma o interpreta Agostinho quando diz: 'Os cristãos se encomendam a Deus em suas orações, rogando uns pelos outros; mas aquele por quem ninguém intercede, mas sim Ele por todos, esse é o único e verdadeiro Mediador. E o apóstolo Paulo, mesmo sendo um de seus principais membros – como era membro do corpo de Cristo e sabia que o Senhor Jesus, sumo e verdadeiro pontífice, entrara por toda a Igreja no íntimo do santuário de Deus, não em figura mas em realidade –, encomenda-se também às orações dos fiéis, e não se constitui a si mesmo mediador entre Deus e os homens, mas suplica que todos os membros do corpo de Cristo orem por ele, assim como o apóstolo ora por eles, uma vez que os membros devem preocupar-se uns com os outros e que, se um membro padece, os outros hão de padecer também com ele (Rm. 15:30; Ef. 6:19; Cl. 4:3; 1Co. 12:25). Assim, as orações de todos os membros que ainda militam na terra, e que fazem uns por outros, devem subir até a Cabeça, que lhes precedeu no céu, na qual temos a remissão dos pecados. Porque se Pedro fosse mediador, sem dúvida o seriam também os demais apóstolos; e se houvesse muitos mediadores, não estaria de acordo com o que o apóstolo diz, que há `um só Mediador entre Deus e os homens` (1Tm. 2:5), no qual nós também somos uma mesma coisa se procurarmos `guardar a unidade do Espírito no vínculo da paz` (Ef. 4:3)' [Agostinho, Contra epist. Parmeniani, II 8, 16. MSL 43,60]. De acordo com essa doutrina, ele mesmo diz sobre o salmo 94: 'Se tu buscas a teu sacerdote, está nos céus; ali ora por ti, Ele que na terra morreu por ti' [Agostinho, In. Ps., 94, 6 MSL 37, 1220s]...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 20)

“No que diz respeito aos santos, que estão mortos segundo a carne e vivem em Cristo, se lhes atribuímos alguma oração, não deliremos que eles têm outro caminho de rezar a Deus que não seja Cristo, que é o único caminho; nem que suas preces sejam aceitas por Deus em nome de ninguém mais senão Cristo. Assim, pois, a Escritura nos afasta de todos os demais, para recorrermos somente a Cristo, porque o Pai celestial quer reunir nele todas as coisas. Seria uma grande tolice, para não dizer loucura, pretender ter acesso a Deus por intermédio dos santos, afastando-nos daquele sem o qual nem eles mesmos teriam acesso. E quem pode negar que isso se vem fazendo desde já muitos anos e que atualmente se pratica onde quer que vigore o papismo?… E se é chamada como testemunha a consciência daqueles que se apoiam na intercessão dos santos, veremos que isso vem unicamente de que estão perplexos, como se Cristo lhes fosse faltar ou fosse muito severo. Como semelhante perplexidade, desonram a Cristo e o despojam do título de único Mediador; honra que, por ter-lhe sido dada como prerrogativa, não se deve atribuir a ninguém mais além dele. Obscurecem assim a glória de seu nascimento, anulam sua cruz e o privam enfim da honra de tudo o que fez e padeceu; porque todas essas coisas tendem a que seja o único Mediador, e reconhecido como tal. Além disso, tampouco levam em conta a vontade de Deus, que lhes demonstra ser um Pai para eles. Porque Deus não é seu Pai se não reconhecem Cristo como irmão; o que claramente negam se não estimam que Cristo os ama com um amor fraterno e tão terno como não pode haver outro no mundo. Por isso a Escritura no-lo apresenta singularmente, a Ele nos envia e nele se detém, sem passar adiante. Diz Ambrósio: 'Ele é nossa boca, com a que falamos ao Pai; nossos olhos, com os que vemos o Pai; nossa mão direita, com a que oferecemos ao Pai; se Ele não intercedesse, nem nós, nem nenhum de quantos santos existem, teríamos acesso a Deus' [Ambrosius, De Isaac vel anima 8, 75 CSEL 32 I, 694,6]...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 21)

14 de mai de 2015

Sim e amém (rev.1)

Sim e amém

Sim, creio no Deus trino (Pai, Filho e Espírito Santo).
Sim, creio que este Deus é o criador do universo.
Sim, creio que este Deus é o sustentador do universo.
Sim, creio que este Deus é transcendente e, ao mesmo tempo, imanente, se revelando e se relacionando com sua criação.
Sim, creio que a Bíblia é a Palavra vivificadora (Hb 4:12) deste Deus que se relaciona e se revela.
Sim, creio que esta Palavra de Deus foi completamente inspirada pelo Espírito Santo, e portanto é inerrante e autoritativa.
Sim, creio que este Deus encarnou na forma humana, o Emanuel (“Deus Conosco”, Mt 1:23).
Sim, creio que este Deus-homem se ofereceu como Redentor para o sacrifício substitutivo.
Sim, creio que este Deus-homem, sem pecado algum, foi crucificado, morto e sepultado.
Sim, creio que este Deus-homem ressuscitou depois do terceiro dia.
Sim, creio que a obra redentora deste Deus-homem é a salvação pela graça, mediante a fé (Ef 2:8-9).
Sim, creio que este Salvador é o meu Salvador, e sou grato a Ele por isso.
Sim, creio que este meu Salvador também tem autoridade e senhorio sobre a minha vida.
Sim, creio que a obra redentora deste Senhor foi necessária e suficiente para me perdoar e me salvar.
Sim, creio que o sacrifício substitutivo deste Deus-homem me justificou perante Deus.
Sim, creio que este Deus me aperfeiçoa, apesar das minhas fraquezas, pela obra do Espírito Santo.
Sim, creio que esta justificação e aperfeiçoamento são suficientes para me conduzir ao Céu.
Sim, creio no Céu como a morada definitiva e eterna dos peregrinos, em Cristo, desta vida.
Sim, sou um cientista.
Sim, sou um professor.
Sim, sou um homem.
Sim, sou um marido.
Sim, sou um pai.
Sim, sou um crente.
Sim, sou um evangélico.
Sim, sou um protestante reformado.
Sim, sou um discípulo do Senhor Jesus Cristo.
Sim, sou um cristão.
Sim e amém.

“Antes, como Deus é fiel, a nossa palavra para convosco não é sim e não. Porque o Filho de Deus, Cristo Jesus, que foi, por nosso intermédio, anunciado entre vós, isto é, por mim, e Silvano, e Timóteo, não foi sim e não; mas sempre nele houve o sim. Porque quantas são as promessas de Deus, tantas têm nele o sim; porquanto também por ele é o amém para glória de Deus, por nosso intermédio” (2 Coríntios 1:18-20, ênfases acrescentadas).
“Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Romanos 1:16a).

Posso perguntar a você, caro leitor(a), no que você crê?
Sua fé é coerente com a sua cosmovisão (visão de mundo)?
Esta sua crença te dá esperança, propósito e uma alegria indizível?
Não fique só na superfície, mais procure cavar mais no fundo, onde se encontra o verdadeiro ouro...

Soli Deo Gloria (SDG)


Link para o texto em PDF aqui.

6 de abr de 2015

Institutas 31

“... Em seguida, demonstraremos que o Senhor, voluntária e liberalmente, mostra-se a nós em Cristo, no qual nos oferece a felicidade, em vez da miséria, e todo tipo de riqueza, em vez de pobreza, no qual nos abre os tesouros do céu, a fim de que nossa fé olhe seu amado filho, para estarmos sempre pendentes dele e toda nossa esperança apoiar-se e descansar nele...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 1)

“... Portanto, embora Deus vele e esteja atento para conservar-nos, mesmo quando estamos distraídos e não sentimos nossas misérias, e se bem que às vezes nos socorre sem que lhe roguemos, não obstante nos importa muito invocá-lo de contínuo... Por todas essas razões, nosso Pai clementíssimo, embora jamais durma nem esteja ocioso, contudo muitas vezes dá mostras de que é assim e de que não se preocupa com nada, para exercitar-nos desse modo em rogar-lhe, pedir-lhe e importuná-lo, porque vê que isso é muito conveniente para pôr remédio à nossa negligência e ao nosso descuido...
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 3)

“... é preciso que nosso fervor para orar se inflame e acenda em nós com as angústias e os pesares, como os vemos nos santos servos de Deus, os quais asseguram que se encontravam entre grandíssimos tormentos – quanto mais entre inquietudes! –, quando dizem que, desde o profundo do abismo, clamam ao Senhor (Salmos 130:1). Mas sim, creio ser necessário arrancar de nós todas as preocupações alheias, que podem desviar nossa atenção para outro lado e fazer descê-la do céu para arrastar-se pela terra. Assim, entendo que é preciso que a alma se eleve acima de si mesma; que não deve levar à presença de Deus nenhuma das coisas que nossa cega e louca razão costuma forjar; e que não deve mantê-la restrita nos limites de sua vaidade, mas que há de elevar-se a uma pureza digna de Deus.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 4)

“Duas coisas são dignas de nota: que todo aquele que se prepara para orar deve aplicar a tal propósito todos os seus sentidos e o seu entendimento, e que não se distraia (como costuma acontecer) com pensamentos erráticos. Porque não há coisa mais contrária à reverência que devemos a Deus que a leviandade que procede da liberdade que tomamos para andar divagando... Porque não há ninguém tão concentrado na oração que não sinta como penetram em seu espírito numerosas fantasias, que interrompem o fio da oração ou a detêm com uma espécie de rodeio...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 5)

“A outra lei deve ser que, ao orar, sempre sintamos verdadeiramente nossa pobreza e, pensando com seriedade que temos necessidade de tudo o que pedimos, acompanhemos nossas petições de um ardente afeto... E mais ainda: até aquelas coisas que pedimos somente para a glória de Deus e que não nos parecem, à primeira vista, dizer relação com nossas necessidades, não obstante é necessário que as peçamos com não menor fervor e veemência. Como quando pedimos que seu nome seja santificado, devemos, por assim dizer, ter fome e sede dessa santificação...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 6)

“... Se alguém tem grande abundância de vinho e trigo, não poderá desfrutar de um só pedaço de pão se a bênção de Deus não continua sobre ele; nem seus grãos o dispensarão de pedir o pão de cada dia. Além disso, se considerarmos quantos são os perigos que nos ameaçam a cada momento, o próprio medo nos ensinará que não há instante em que não tenhamos grande necessidade de orar. Podemos conhecer isso muito melhor nas necessidades espirituais. Quando tantos pecados, de que nossa própria consciência nos acusa, permitirão estarmos ociosos, sem pedir perdão humildemente? Quando as tentações farão as pazes conosco, de sorte que não tenhamos necessidade de acolher-nos em Deus, buscando socorro? Ademais, o desejo de ver o reino de Deus prosperando e seu nome glorificado deve apoderar-se de nós de maneira tão intensa e contínua, não a intervalos, que tenhamos sempre presente a oportunidade e ocasião de orar. Por isso, não sem motivo, recomenda-nos a assiduidade na oração... Assim, a legítima oração requer penitência. Daí aquilo tão recorrente na Escritura: que Deus não ouve os malvados; que suas orações lhe são abomináveis, como também seus sacrifícios. Porque é justo que encontrem fechados os ouvidos de Deus aqueles que lhe fecham seu coração; e que aqueles que, com sua dureza e obstinação, provam o rigor de Deus, sintam-no inexorável... Por conseguinte, todo aquele que se dispuser a orar, que sinta desgosto por seus pecados e se revista da aparência e do sentimento de um mendicante; o que não pode acontecer sem penitência.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 7)

“Acrescente-se ainda uma terceira regra: todo aquele que se apresenta diante de Deus para orar abdique de todo pensamento acerca de sua própria glória, abandone toda opinião da própria dignidade e, em consequência, arranque de si a autoconfiança, dando, em sua abjeção, toda a glória a Deus; para que não nos arroguemos alguma coisa, por pequena que seja, nem nos apresentemos diante da majestade divina com nossa soberba...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 8)

“A quarta regra é que, assim prostrados e abatidos com verdadeira humildade, tenhamos contudo bom ânimo para orar, com a firme esperança de que seremos escutados. À primeira vista, parecem coisas bem contrárias unir com o sentimento da justa cólera de Deus, a confiança em seu favor; no entanto, ambas as coisas estão muito de acordo entre si se, oprimidos por nossos próprios vícios, somos levantados apenas pela bondade de Deus... Essa harmonia e conveniência entre o temor e a confiança, expõe-na Davi em poucas palavras: ‘Eu, pela abundância de tua bondade, entrarei em tua casa, adorarei em teu santo templo, em teu temor’ (Salmos 5:7)...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 11)

“... Porque que tipo de oração seria esta: ó Senhor, eu certamente duvido se me quererás ouvir ou não; mas, como estou muito aflito, recorro a ti, para que, se for digno, me socorras? Nenhum dos santos, cujas orações lemos na Escritura, tinha esse hábito. Nem o Espírito Santo nos instruiu assim por intermédio do apóstolo, que ordena que nos aproximemos do trono celestial com confiança, para alcançarmos a graça (Hebreus 4:16)... E mais: o grande acúmulo de nossos pecados deve estar cheio de estímulos que nos incitem e nos obriguem a orar, como com seu próprio exemplo no-lo ensina o profeta, dizendo: ‘Cura minha alma, porque pequei contra ti’ (Salmos 41:4). Confesso que certamente as pontadas de tais aguilhões seriam mortais se Deus não nos socorresse. Mas nosso bom Pai, por sua incomparável indulgência, aplica a tempo o remédio com que, aquietando nossa perturbação, suavizando nossas opressões e tirando de nós o temor, com toda afabilidade nos atrai até Ele; eliminando ainda todos os escrúpulos e os obstáculos, para tornar-nos o caminho mais fácil.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 12)

30 de mar de 2015

Institutas 30

“2. A liberdade cristã, em meu entender, consta de três partes. A primeira é que a consciência dos fiéis, quando tratam de buscar confiança de sua justificação diante de Deus, levante-se por cima da Lei e esqueça-se de toda justiça legal. Porque como a Lei, conforme já provado, não deixa ninguém justo, ou devemos ser excluídos de toda esperança de ser justificados, ou é necessário nos vermos livres dela de tal maneira que não tenhamos nada que ver com nossas obras... Assim que, quando se trata de nossa justificação, é preciso, sem fazer menção alguma da Lei e abandonando toda ideia sobre as obras, abraçarmos somente a misericórdia de Deus, e, afastando os olhos de nós mesmos, olharmos somente a Jesus Cristo. Porque aqui não se pergunta de que maneira somos justos. O que se pergunta é de que maneira nós, sendo injustos e indignos, somos considerados justos. Bem, se nossa consciência quer ter alguma certeza acerca disso, não deve dar entrada nenhuma à Lei. Tampouco deve alguém deduzir daqui que a Lei seja supérflua e de nada sirva aos fiéis, pois ela não deixa de ensiná-los, exortá-los e incitá-los ao bem, ainda eu, no que se refere ao tribunal de Deus, não tenha lugar em sua consciência...
4. A outra parte da liberdade cristã, que depende da primeira, é que as consciências obedeçam à Lei não porque estão coagidas pela necessidade da Lei, mas porque, livres do jugo da Lei, obedeçam a Deus de boa vontade... Se olham para a Lei, veem que tudo o que tentam e pretendem fazer está maldito. E  ninguém pode se enganar pensando que sua obra, apesar de imperfeita, não é de todo má, e que, portanto, tudo o que há nela de bom é aceito por Deus, porque a Lei, ao exigir um amor perfeito, condena toda imperfeição, a menos que seu rigor seja de antemão mitigado. Que cada um, pois, considere suas obras, e verá que o que lhe parecia bom é transgressão da Lei, enquanto não é perfeito...
5. Eis aqui como todas as nossas obras estão sob a maldição da Lei quando examinadas ao modo da lei. Como as pobres almas sentir-se-iam alegremente dispostas às obras se acreditavam que não obteriam senão maldição? Pelo contrário, se, livres da severa disposição da Lei, ou antes liberadas de todo o rigor da Lei, ouvem que Deus as chama com suavidade e ternura paterna, respondem àquele que as chama com grande alegria e felicidade e o seguem aonde quer que Ele as leve. Em resumo: todos os que estão sob o jugo da Lei são semelhantes aos servos, aos quais seus amos cada dia lhes impõem tarefas que cumprir: eles não pensam haver feito nada nem se atrevem a comparecer diante de seus amos sem ter primeiro realizado plenamente a tarefa que lhes decretaram. Em contraposição, os filhos que são tratados mais benigna e liberalmente pelos pais não temem apresentar diante deles suas obras imperfeitas e incompletas, e até com algumas falhas, confiados que sua obediência e boa vontade serão agradáveis aos pais, ainda que não as tenham realizado com tanta perfeição quanto queriam... (Malaquias 3:17)...
7. A terceira parte da liberdade cristã é que, diante de Deus, não nos preocupemos com as coisas externas... diante de Deus, é-nos permitido realizá-las ou omiti-las indiferentemente. Decerto nos é muito necessário o conhecimento de tal liberdade, pois, de modo contrário, não conseguiremos tranquilidade de consciência nem terão fim nossas superstições... Se alguém começar a duvidar se é lícito usar linho em seus lenços, camisas, toalhas e guardanapos, depois não estará seguro nem sequer de poder usar cânhamo, e, no fim, começará até a duvidar de ser lícito usar estopa. E dará voltas ao redor de si, perguntando-se se pode cear sem guardanapos, ou não, se pode abrir mão das toalhas. Se alguém acha que parecerá ilícita uma ceia um pouco mais delicada, em breve não comerá tranquilo nem sequer pão preto ou alimentos vulgares, porque lhe virá à mente a ideia de que poderia sustentar seu corpo com alimentos ainda mais inferiores. Se hesitar quanto a um vinho mais fino, logo não beberá com a consciência tranquila nem aguapé, e finalmente não se atreverá a tocar nem a água que for mais doce e clara que outra. Em resumo: irá tão longe em sua loucura que terá por gravíssimo pecado passar por cima de uma palhinha atravessada, como se diz...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XIX, parágrafos 2-7)

“Diz Paulo: ‘Eu sei que nada é impuro (e, por impuro, entenda-se profano) em si mesmo; uma coisa torna-se impura somente para quem a considera impura’ (Rm 14:14). Com estas palavras, coloca sob nossa liberdade todas as coisas exteriores, contanto que nossa consciência esteja segura dessa liberdade perante Deus...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XIX, parágrafo 8)

A liberdade cristã, que deve ser considerada em todas as suas partes, é uma realidade espiritual cuja firmeza consiste totalmente em aquietar, perante Deus, as consciências atemorizadas, quer estejam inquietas e preocupadas pela remissão de seus pecados, quer estejam ansiosas para saber se as obras imperfeitas e repletas dos vícios da carne agradam a Deus, quer estejam atormentadas com respeito ao uso das coisas indiferentes...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XIX, parágrafo 9)

“... ‘À liberdade fostes chamados; porém, não useis a liberdade de pretexto para servirdes à carne, mas servi-vos uns aos outros, por amor’ (Gl 5:13). E assim é, em verdade. Nossa liberdade não nos foi dada contra nossos próximos fracos, dois quais a caridade nos faz ser servidores; mas para que, tendo tranquilidade de consciência perante Deus, vivamos também em paz entre os homens.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XIX, parágrafo 11)

“... ‘Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém; tudo me é permitido, mas nem tudo edifica. Que ninguém busque seu próprio bem, mas o do outro’ (1Co 10:23-24). Não pode haver coisa mais clara que esta regra: que usemos de nossa liberdade se disso resultar proveito para o próximo; mas que nos abstenhamos dela se for prejudicial ao próximo... Portanto, é próprio de um homem pio pensar que lhe foi concedido o livre poder das coisas externas para que, assim, esteja mais preparado para realizar os deveres da caridade.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XIX, parágrafo 12)

“... Pois a consciência é um meio entre Deus e o homem; porque o homem não é capaz de suprimir em si mesmo aquilo que sabe, mas isso o persegue até levá-lo ao arrependimento. É isto o que Paulo quer dizer quando afirma que a consciência dá testemunho aos homens, acusando ou defendendo seus raciocínios (Rm 2:15). Um simples conhecimento podia estar no homem como que sufocado. Por isso, o sentimento que coloca o homem perante o julgamento de Deus é como uma salvaguarda, concedida para surpreender e espiar todos os seus segredos, a fim de que nada fique oculto, mas que tudo venha à luz. Daí nasceu aquele antigo provérbio: a consciência é como mil testemunhas [Quintilianus, De institut. Orat. V 11, 41]...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XIX, parágrafo 15)

7 de mar de 2015

Aprendizado piedoso 107

"A ressurreição de Cristo teve características significativas. Em primeiro lugar, Ele ressuscitou como uma pessoa pública, permanecendo no lugar do Seu povo não apenas na morte, mas também na ressurreição. Consequentemente, quando Cristo ressuscitou, toda a igreja ressuscitou Nele (Efésios 2:6). Em segundo lugar, Cristo, por Seu próprio poder, ressuscitou a Si mesmo dos mortos (João 2:19; 10:18). Isto demonstrou que Ele não foi apenas homem, mas também verdadeiro Deus. Além disso, isto exibiu o poder de Cristo parar ressuscitar também a Sua igreja, da morte para a vida. Em terceiro lugar, Cristo ressuscitou com um terremoto. Isto foi para provar que ele não perdeu nenhum poder por causa da morte, mas que Ele ainda permanece o absoluto Senhor do céu e da terra, diante do qual a terra tremeu."

(Trecho traduzido do artigo "Cristianismo doutrinário – A ressurreição de Cristo e a nossa", de William Perkins, publicado na página 232 da revista “The Banner of Sovereign Grace Truth”, Vol. 22, No. 8, outubro de 2014)
http://hnrc.org/wp-content/uploads/2010/06/Oct-BSGT14-FINAL2-small-w-cover.pdf


3 de mar de 2015

Aprendizado piedoso 106

Jerônimo (d. 420 AD) disse que ele tinha aprendido os Salmos enquanto era uma criança e que os cantava ainda diariamente quando estava já idoso. Ele também escreveu:

“Os Salmos são continuamente ouvidos nos campos e nos vinhedos da Palestina. O lavradores, conforme seguram seus arados, entoam o Aleluia [Hallelujah]; e o ceifeiro, o cultivador de vinhas, e o pastor de rebanhos canta algo dos Salmos de Davi. Onde os prados são coloridos com flores, e os pássaros cantantes fazem seus lamentos, os Salmos soam ainda mais doces. Estes Salmos são nossas canções de amor, os instrumentos da nossa agricultura.”

[John McNaughter, The Psalms in Christian Worship (1907, Edmonton: Canada: Still Water Revival Books, 1992)]

19 de fev de 2015

Aprendizado piedoso 105

Justificação:

“Se houver embasamento para você confiar em sua própria justiça, então tudo o que Cristo fez para comprar a salvação, e tudo o que Deus fez para preparar o caminho para ele, é em vão.”
(Jonathan Edwards)

“A torrente de graça e justiça é mais profunda e mais ampla do que a torrente de culpa.”
(Matthew Henry)

“Justificação tem a ver não com o nosso estado, mas com a nossa posição: ela se refere a nossa posição diante de Deus.”
(Ernest F. Kevan)

“Prefiro aprender o que alguns homens realmente julgam sobre a sua própria justificação de suas orações, do que dos seus escritos.”
(John Owen)

“Há um duplo grau de justificação: um em nossa consciência, agora, e outra no Dia do Juízo.”
(Richard Sibbes)

“Cristo esconde a nossa injustiça com a Sua justiça, Ele cobre a nossa desobediência com sua obediência, Ele sombreia nossa morte com a Sua morte, de tal modo que a ira de Deus não pode nos encontrar.”
(Henry Smith)

“Deus não nos justifica porque somos dignos, mas a justificação nos torna dignos.”
(Thomas Watson)

“A justificação pela fé é a dobradiça na qual toda a verdadeira religião se apoia.”
(John Calvin)

(Fonte: "The Banner of Sovereign Grace Truth", vol.4, núm.6, julho-agosto/1996)

13 de fev de 2015

Aprendizado piedoso 104

A ressurreição de Cristo:

"A ressurreição de Cristo é o início de seu reinado [e] o artigo mais importante da nossa fé."
(John Calvin)

"Todo antecedente na vida encarnada do nosso Senhor se move em direção à ressurreição, e todo subsequente repousa sobre ela e é condicionado por ela."
(John Murray)

"A ressurreição de Jesus exige não o nosso aplauso, mas a nossa lealdade, não os nossos cumprimentos, mas a nossa rendição."
(John Blanchard)

(Fonte: "The Banner of Sovereign Grace Truth", vol.18, núm.4, abril/2010)

12 de fev de 2015

Aprendizado piedoso 103

Paciência:

Thomas Adams - "A paciência não deve ser nem uma polegada mais curta do que a aflição."
John Blanchard - "Paciência Bíblica não está enraizada no fatalismo que diz que tudo está fora de controle. Ela está enraizada na fé que diz que tudo está no controle de Deus."
João Calvino - "Não há lugar para a fé, se esperamos que Deus cumpra imediatamente o que Ele promete."
William Jenkyn - "A esperança é a mãe de paciência."
George Swinnock - "Alongar a minha paciência é a melhor maneira de encurtar os meus problemas."
Thomas Watson - "Paciência na oração nada mais é do que a fé em movimento."


4 de fev de 2015

Institutas 29

“... Agostinho diz, em certa passagem: ‘Calem aqui os méritos humanos, que por Adão pereceram, e reine a graça de Deus por Jesus Cristo’ [Agostinho, De praedest. Sanct. 15, 31 MSL 44, 983]. E também: ‘Os santos não atribuem nada a seus méritos, mas atribuem tudo, ó Deus, à tua misericórdia!’ [Agostinho, In Ps. 139, 18 MSL 37, 1814]. E também: ‘Quando o homem vê que todo o bem que tem não o tem de si mesmo, mas de seu Deus, vê que tudo o que é louvado não vem de seus méritos, mas da misericórdia de Deus’ [Agostinho, In Ps. 84, 9 MSL 37, 1073]. Vemos que, depois de tirar do homem a faculdade de executar boas obras, rebaixa também a dignidade de seus méritos. Do mesmo modo Crisóstomo: ‘Todas as nossas obras, que seguem a gratuita vocação de Deus, são recompensa e dívida que lhe pagamos; mas os dons de Deus são graça, beneficência e grande liberalidade’ [Chrysostomus, In. Gen. Hom. 34, 6 opp IV 404 A]...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XV, parágrafo 2)

... Portanto, só está bem fundamentado em Cristo quem sólida e firmemente tem nele sua justiça, uma vez que o apóstolo não diz que Cristo foi enviado para nos ajudar a alcançar justiça, mas para ser nossa justiça, a saber, segundo nos escolheu antes da fundação do mundo, não segundo nossos méritos, mas segundo o mero afeto de sua vontade (Ef. 1:4-5)... Mas isto não é tudo, pois, ao sermos admitidos a tal participação, ainda que em nós mesmos ainda sejamos insanos, ele é para nós sabedoria diante de Deus; ainda que sejamos pecadores, ele é justiça para nós; ainda que sejamos impuros, ele é pureza para nós; ainda que sejamos débeis e estejamos sem forças e inermes e não possamos resistir a Satanás, a potência que foi dada a Cristo no céu e na terra é nossa e, com ela, ele submete Satanás e faz saltar em pedaços as portas do inferno (Mt. 28:18; Rm. 16:20); ainda que levemos conosco um corpo sujeito à morte, ele nos é vida. Enfim, tudo que ele tem é nosso, e nele temos todas as coisas e em nós nenhuma...
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XV, parágrafo 5)

“... Porque nossa confiança, nossa glória e única âncora de nossa salvação é que Jesus Cristo Filho de Deus é nosso, e que também nós somos nele filhos de Deus e herdeiros do reino dos céus, chamados à esperança da bem-aventurança eterna; e isso não por nossa dignidade, mas pela benignidade de nosso Deus...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XVII, parágrafo 1)

... Pois este [o homem], considerado segundo a própria natureza, não tem nada que possa mover a Deus por misericórdia; nada, senão sua miséria...
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XVII, parágrafo 4)

“... Tampouco discutirei com pertinácia com aquele que quiser atribuir aos santos o título de perfeição, contanto que a defina como o faz Agostinho: ‘... quando chamamos perfeita a virtude dos santos, para sua perfeição se requer o conhecimento de sua imperfeição, ou seja, que deveras e com humildade reconheçam quão imperfeitos são’ [Agostinho, Contra duas epist. Pelag. III 7, 19; MSL 44, 602; CSEL 60, 508, 12ss]...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XVII, parágrafo 15)

... Primeiro, tenhamos como certo que o reino dos céus não é um estipêndio [salário] de servos, mas uma herança de filhos, na posse da qual entrarão somente aqueles a quem o Senhor tiver eleito como tais (Ef. 1:5-18); e isso não por outro motivo senão pela adoção...
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XVIII, parágrafo 2)

“... Em primeiro lugar, que cada um considere em seu interior quão duro e difícil é abandonar e renunciar não apenas a todas as nossas coisas, mas sobretudo a si mesmo. E, no entanto, é com essa primeira lição que Cristo inicia seus discípulos, quer dizer, todos os fiéis. Depois os mantém durante o curso de toda a vida sob a disciplina da cruz, a fim de que não se afeiçoem nem ponham seu coração na cobiça e na confiança dos bens presentes. Numa palavra, trata-os de tal forma que, para onde olharem, em toda a amplitude do mundo, não vejam senão desesperação. De tal maneira que Paulo diz: ‘Se é só para esta vida que pusemos a esperança em Cristo, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens’ [1Co. 15:19]. E, a fim de que não esmoreçam com tais angústias, o Senhor os assiste e os adverte a levantarem a cabeça e olharem para cima, para que encontrem nele a bem-aventurança, que não veem neste mundo. Chama a essa bem-aventurança ‘prêmio’, ‘salário’ e ‘retribuição’, não estimando o mérito das obras, mas dando a entender ser uma compensação por suas opressões, sofrimentos e afrontas etc. Portanto, não há perigo algum em nós, a exemplo da Escritura, chamarmos à vida eterna ‘remuneração’, uma vez que o Senhor nela recebe os seus, que passam dos trabalhos ao repouso, da aflição à prosperidade, da tristeza à alegria, da pobreza  à abundância, da ignomínia à glória. Finalmente, que Ele transmuta todos os males que padeceram em bens muito maiores. Dessa maneira, não há inconveniente algum em pensar que a santidade de vida é o caminho; não que ela seja o que nos abre a porta para entrar na glória do reino dos céus, mas que por ela Deus encaminha e guia seus eleitos à manifestação dessa glória, pois seu beneplácito é glorificar aqueles a quem santificou (Rm. 8:30)... Não há coisa mais certa e clara que promete salário às boas obras; e isso não para encher nosso coração de vanglória, mas para ajudar a debilidade de nossa carne...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XVIII, parágrafo 4)

“... Se é verdadeiro o que diz Cristo, ‘Onde está vosso tesouro, ali estará também vosso coração’ [Mt 6:21], de igual modo que os filhos deste século têm por costume empregar todo o seu entendimento em adquirir e amontoar as coisas que podem trazer-lhes os deleites da vida presente, assim também é preciso que os fiéis, vendo que esta vida há de passar como um sonho, transfiram as coisas das que deveras querem usufruir ao lugar onde hão de viver para sempre. Devemos, pois, imitar aqueles que desejam mudar-se para outro lugar, no qual determinaram estabelecer sua morada permanente. Estes enviam por diante toda sua fazenda e tudo o que possuem, e não lhes causa pena carecer disso durante algum tempo, pois se consideram tanto mais ditosos quanto maiores bens têm no lugar onde hão de passar toda a vida. Se acreditarmos que o céu é nossa terra, para lá devemos enviar todas as nossas riquezas, e não as reter aqui, onde teremos de deixá-las de uma hora para outra, quando partirmos. E como as transportaremos? Ajudando os pobres em suas necessidades, já que o Senhor tem em conta tudo quanto lhes for dado, como se fora dado a Ele mesmo (Mt. 25:40). Daí aquela bela promessa: ‘ao Senhor empresta quem dá ao pobre’ (Pv. 19:17). E: ‘Aquele que semeia com generosidade também com generosidade colherá’ (2Co. 9:6). Porque tudo aquilo que usamos por caridade com nossos irmãos fica depositado nas mãos do Senhor... podemos concluir deles senão a pura propensão à indulgência divina para conosco, uma vez que, para animar-nos a fazer o bem, o Senhor promete que nenhuma obra nossa será perdida, embora elas sejam, em essência, indignas de comparecer diante de sua presença.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XVIII, parágrafo 6)

“... Logo, essa justiça de Deus refere-se mais à verdade de sua promessa que à equidade de pagar-nos o que nos é devido. Nesse sentido, há um trecho notável de Agostinho. Como este homem santo não duvidou em repeti-lo muitas vezes como algo memorável, eu, da mesma forma, não o julgo indigno de o repetirmos de memória muitas vezes. Diz: ‘Fiel é o Senhor, que se fez nosso devedor, não tirando coisa alguma de nós, mas nos prometendo tudo’ [Agostinho, In Ps. 32 enarr. II serm. 1,9 MSL 36, 284; In Ps. 109, 1 MSL 37, 1445; In Ps. 83, 16, ibid. col. 1068; Serm. 111, 5; 158, 2; 245, 5. 6 MSL 38, 641.836.1184].”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XVIII, parágrafo 7)

“... Porque nenhum de nós é capaz de guardar os mandamentos. E como, por isso, ficamos excluídos da justiça da Lei, é mister nos acolhermos em outro refúgio, a saber, na fé em Cristo. Por conseguinte, assim como o Senhor remete ao doutor da Lei à mesma Lei (Mt. 19:17), porque sabia que estava cheio de vã confiança nas obras, a fim de que por ela aprendesse a reconhecer-se como pecador e sujeito à eterna condenação, igualmente o Senhor, em outro lugar, consola com a promessa de sua graça sem fazer menção alguma da Lei aos que já estavam humilhados com semelhante conhecimento de si mesmos: ‘Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos farei descansar; e encontrareis descanso para vossas almas’ (Mt. 11:28-29).”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XVIII, parágrafo 9)

“... Os leitores me perdoarão se não me demoro em refutar tais tolices, mas digo que, sem ser atacadas, quebrar-se-ão pela própria debilidade. Parece-me correto, no entanto, responder a uma objeção que formulam [os opositores], a qual, por ter certa aparência de verdade, poderia suscitar algum escrúpulo nas pessoas simples...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XVIII, parágrafo 10)